como um boneco de crochê
que passa o tempo todo
nos braços de um bebê
apresento o sorriso costurado à boca.
quem me pergunta o porquê
eu não digo nada
desta piada quem rio sou eu
minhas pernas tão loucas pra dançar
e antes de perder todo meu ar, eu me divirto
e me deixo então levar
no pitoresco
brisa quando passa é refresco
tem que aproveitar.
sábado, 12 de outubro de 2013
domingo, 25 de agosto de 2013
quarta-feira, 14 de agosto de 2013
démodé
Tenho diversas encrencas com as tecnologias digitais. a maior delas é a insistência em reduzir nossa personalidade, dotada das mais diversas dicotomias e questões complexas, a um grupo de fotos de poses forjadas, dispersas frases publicadas com algum objetivo planejado (inconsciente ou não) e projeções baseadas em como gostaríamos que o outro nos enxergasse. tudo assustadoramente natural e, na mesma medida, teatral.
Consequentemente, resumimos nossas vivências, opiniões, tristezas, medos, expectativas, traumas, esperanças e posições em relação ao mundo a uma foto boba com um sorriso amarelo no perfil. embalamos tal expressão em um pacote esteticamente agradável aos olhos e o dispomos nas virtuais prateleiras deste supermercado cujas fronteiras ninguém vê. tornamo-nos palatáveis, digeríveis e simplificados. enquanto isso, o tempo passa em uma logica que ainda não compreendemos totalmente, e tudo se torna primitivo e antiquado em questão de dias. so last week. démodé.
A pressão de renovar-se constantemente a fim de manter-se atraente perante o olhar do outro exige uma criatividade ilimitada. nossa geração é hype, é cool. todo mundo tem pinta de publicitário e de social media. sabemos o que está in e o comunicamos com fotos no Instagram do nosso ultimo prato no Consultório Culinário. na internet, somos todos engraçados, profundos e detemos uma opinião para tudo. também cozinhamos diversos pratos e somos peculiarmente intelectuais. ao ver uma foto de uma estante de livros em um quarto, me pego imaginando o trabalho da pessoa em ordenar tudo adequadamente, fechar a cortina para alcançar a luz adequada, tirar uma foto daqui, outra dali, com flash, sem flash... quanto tempo ela deve ter perdido para eu deslizar o mouse e visualizar sua imagem durante cinco segundos? quinze, vinte minutos? de alguma forma, as redes sociais nos ligaram a tal ponto que nos tornamos padronizados em nosso comportamento.
Uma vez li o desabafo de uma ex-chefe no Facebook: "não gosto de sushi, nem de frio. posso ficar aqui ainda?". acho que resume muita coisa. de tanto perseguirmos os mesmos objetivos, transformamo-nos em produtos em série. conseguimos a façanha de comercializar nossa própria identidade em uma época cuja moeda é virtual, ditada pela popularidade vapórea do numero de curtidas e compartilhamentos obtidos.
Somos um cigarro que consome a si mesmo. após a primeira tragada, lentamente descansamos em um cinzeiro acessível a todos. aos poucos as pessoas dão tragadas, sem pudor nem rancor. ao fim, o fumo se consome: fica o vazio da incompletude e a duvida: quanto valho por essas bandas? ou, mais enlouquecedor: será que consigo fugir disso?
Consequentemente, resumimos nossas vivências, opiniões, tristezas, medos, expectativas, traumas, esperanças e posições em relação ao mundo a uma foto boba com um sorriso amarelo no perfil. embalamos tal expressão em um pacote esteticamente agradável aos olhos e o dispomos nas virtuais prateleiras deste supermercado cujas fronteiras ninguém vê. tornamo-nos palatáveis, digeríveis e simplificados. enquanto isso, o tempo passa em uma logica que ainda não compreendemos totalmente, e tudo se torna primitivo e antiquado em questão de dias. so last week. démodé.
A pressão de renovar-se constantemente a fim de manter-se atraente perante o olhar do outro exige uma criatividade ilimitada. nossa geração é hype, é cool. todo mundo tem pinta de publicitário e de social media. sabemos o que está in e o comunicamos com fotos no Instagram do nosso ultimo prato no Consultório Culinário. na internet, somos todos engraçados, profundos e detemos uma opinião para tudo. também cozinhamos diversos pratos e somos peculiarmente intelectuais. ao ver uma foto de uma estante de livros em um quarto, me pego imaginando o trabalho da pessoa em ordenar tudo adequadamente, fechar a cortina para alcançar a luz adequada, tirar uma foto daqui, outra dali, com flash, sem flash... quanto tempo ela deve ter perdido para eu deslizar o mouse e visualizar sua imagem durante cinco segundos? quinze, vinte minutos? de alguma forma, as redes sociais nos ligaram a tal ponto que nos tornamos padronizados em nosso comportamento.
Uma vez li o desabafo de uma ex-chefe no Facebook: "não gosto de sushi, nem de frio. posso ficar aqui ainda?". acho que resume muita coisa. de tanto perseguirmos os mesmos objetivos, transformamo-nos em produtos em série. conseguimos a façanha de comercializar nossa própria identidade em uma época cuja moeda é virtual, ditada pela popularidade vapórea do numero de curtidas e compartilhamentos obtidos.
Somos um cigarro que consome a si mesmo. após a primeira tragada, lentamente descansamos em um cinzeiro acessível a todos. aos poucos as pessoas dão tragadas, sem pudor nem rancor. ao fim, o fumo se consome: fica o vazio da incompletude e a duvida: quanto valho por essas bandas? ou, mais enlouquecedor: será que consigo fugir disso?
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
aos 17
encontrei uma poesia que fiz aos 17 e achei bonitinha
Paciente, como quem
Sabe que tudo é ou será pleno,
Paciente, como quem
Sabe que tudo é ou será pleno,
Ama-me menos, devagar,
Para assim amar-me mais.
quinta-feira, 1 de agosto de 2013
a terapia
você já parou para tirar fotos de uma paisagem bonita? o que ocorre é que, atrás da lente, você sai da posição de experimentador para se transformar em observador, então não vive mais o momento visto que se distanciou para registrá-lo. você não presencia, mas analisa. a memoria cerebral não é exercitada porque no final você terá uma bela fotografia para encarnar o sentimento que supostamente sentia na hora. meses depois, você verá a foto para se lembrar de como era bonita a paisagem, quando de fato não vai recordar, mas supor, visto que estava ocupado demais em gravá-la no filme da câmera. a imagem em papel trará uma alegoria de sentimento, uma lembrança meio-verdade, meio-falsa. mil fotografias e poucas imagens mentais, pouca experiência no presente na esperança de colher os frutos no futuro. seguindo tal raciocínio,
você tem dificuldades em manter-se no presente uma vez em que é movido pela vontade de sempre ser critico e de sempre analisar tudo para não cair no senso-comum. então você se torna ansioso e precisa de cada vez mais tempo e de mais experiências marcantes para apreender a realidade a fim de tocar os seus sentidos mais profundos para viver as mais diversas epifanias que nenhum barato de uma barata lispectoriana poderia proporcionar. você busca
as pessoas mais intensas e os gênios mais complicados e nunca está contente ou satisfeito visto que nada é bom o bastante e assim você entra em um circulo sem fim no qual vive muita coisa mas nada é o bastante.
(eu olho nos seus olhos e vejo que você não tem a idade da sua carteira de identidade.)
seu sorriso é jovem e você esconde bem, mas seus olhos mostram algumas das mais profundas cicatrizes que só pessoas velhas têm. e fala com um pesar e calma que não é reservado aos jovens. você gostaria de ser mais velho?
...
você, quando conhece alguma pessoa diferente, põe-se reservado e se torna uma pessoa das mais atenciosas. porque você analisa tudo porque não consegue entrar em uma situação sem saber se vai dar em algum lugar porque as coisas para você sempre têm que dar em algum lugar, caso contrário é uma perda de tempo. além disso, você precisa ter uma direção, senão não consegue saber se está melhorando ou piorando na vida. então você analisa e se julga e secretamente julga os outros mas julga a si mesmo mais ainda. você entrou nesta sala e sentou na poltrona vermelha e sorriu e perguntou se tudo estava bem comigo antes mesmo de eu perguntar se tudo estava bem com você e em seguida ajeitou-se confortavelmente como se não tivesse nenhum medo de mim, como se estivesse acostumado a transitar por inúmeros ambientes desconhecidos simplesmente porque não houve outra opção na sua vida além de dobrar esquinas vazias nos mais escuros becos da sua consciência. então você coçou o queixo e olhou para o lado e eu percebi
que você quer estar em todos os lugares e em nenhum lugar e que você se fecha em uma concha escura de proteção e insegurança e dificilmente sai de lá. entretanto, quando sai você libera toda a energia retida de uma vez. então você se apaixona perdidamente e caso a pessoa mostre que pode lhe machucar você hesita porque tem medo de não aguentar outras feridas porque está cansado de consertar as coisas e de colocar esparadrapos e pensar que amanhã vai ser melhor porque as coisas sempre ficam melhores no futuro. então você se apega nesse ir deixando, indo, levando. vive como se estivesse sentado dentro de um ônibus, esperando a hora de descer a parada, porém no fundo desejando que a parada não chegue nunca, já que sentar ali é bom e não faz mal a ninguém. olhando através da janela você pensa em como as coisas passam e é tudo muito bonito, mas efêmero. segundo seus olhos, o mundo pode ser despido de profundos sentidos, assim como adornado de significados dos mais estranhos. infelizmente, nosso tempo
acabou, e eu gostaria de vê-lo mais uma vez nesta semana, porque seu olhar está para fora de si e daqui a pouco você vai verter diante de mim, como uma cachoeira brava que segue a lei da gravidade.
você tem dificuldades em manter-se no presente uma vez em que é movido pela vontade de sempre ser critico e de sempre analisar tudo para não cair no senso-comum. então você se torna ansioso e precisa de cada vez mais tempo e de mais experiências marcantes para apreender a realidade a fim de tocar os seus sentidos mais profundos para viver as mais diversas epifanias que nenhum barato de uma barata lispectoriana poderia proporcionar. você busca
as pessoas mais intensas e os gênios mais complicados e nunca está contente ou satisfeito visto que nada é bom o bastante e assim você entra em um circulo sem fim no qual vive muita coisa mas nada é o bastante.
(eu olho nos seus olhos e vejo que você não tem a idade da sua carteira de identidade.)
seu sorriso é jovem e você esconde bem, mas seus olhos mostram algumas das mais profundas cicatrizes que só pessoas velhas têm. e fala com um pesar e calma que não é reservado aos jovens. você gostaria de ser mais velho?
...
você, quando conhece alguma pessoa diferente, põe-se reservado e se torna uma pessoa das mais atenciosas. porque você analisa tudo porque não consegue entrar em uma situação sem saber se vai dar em algum lugar porque as coisas para você sempre têm que dar em algum lugar, caso contrário é uma perda de tempo. além disso, você precisa ter uma direção, senão não consegue saber se está melhorando ou piorando na vida. então você analisa e se julga e secretamente julga os outros mas julga a si mesmo mais ainda. você entrou nesta sala e sentou na poltrona vermelha e sorriu e perguntou se tudo estava bem comigo antes mesmo de eu perguntar se tudo estava bem com você e em seguida ajeitou-se confortavelmente como se não tivesse nenhum medo de mim, como se estivesse acostumado a transitar por inúmeros ambientes desconhecidos simplesmente porque não houve outra opção na sua vida além de dobrar esquinas vazias nos mais escuros becos da sua consciência. então você coçou o queixo e olhou para o lado e eu percebi
que você quer estar em todos os lugares e em nenhum lugar e que você se fecha em uma concha escura de proteção e insegurança e dificilmente sai de lá. entretanto, quando sai você libera toda a energia retida de uma vez. então você se apaixona perdidamente e caso a pessoa mostre que pode lhe machucar você hesita porque tem medo de não aguentar outras feridas porque está cansado de consertar as coisas e de colocar esparadrapos e pensar que amanhã vai ser melhor porque as coisas sempre ficam melhores no futuro. então você se apega nesse ir deixando, indo, levando. vive como se estivesse sentado dentro de um ônibus, esperando a hora de descer a parada, porém no fundo desejando que a parada não chegue nunca, já que sentar ali é bom e não faz mal a ninguém. olhando através da janela você pensa em como as coisas passam e é tudo muito bonito, mas efêmero. segundo seus olhos, o mundo pode ser despido de profundos sentidos, assim como adornado de significados dos mais estranhos. infelizmente, nosso tempo
acabou, e eu gostaria de vê-lo mais uma vez nesta semana, porque seu olhar está para fora de si e daqui a pouco você vai verter diante de mim, como uma cachoeira brava que segue a lei da gravidade.
domingo, 28 de julho de 2013
ordem dos fatos
como quem costura o botão caído
redijo o texto da minha vida
que seja o que for pra ser
e o que tenha que devir
nascer.
redijo o texto da minha vida
que seja o que for pra ser
e o que tenha que devir
nascer.
terça-feira, 23 de julho de 2013
domingo, 21 de julho de 2013
Ânsia
Trecho da peça "Ânsia", da dramaturga inglesa Sarah Kane. Lembra Caio Fernando Abreu.
"E quero brincar de esconde-esconde e dar minhas roupas para você e dizer que eu gosto dos seus sapatos e sentar nos degraus enquanto você toma banho e massagear seu pescoço e beijar seus pés e segurar a sua mão e sair para jantar e não me importar quando você comer minha comida e encontrar você no Rudy e falar sobre o dia e digitar suas cartas e carregar suas caixas e rir da sua paranoia e te dar fitas que você não vai ouvir e assistir a belos filmes e assistir a filmes horríveis e reclamar do rádio e tirar fotos de você quando você estiver dormindo e levantar para te levar o café e pãezinhos e geleia e ir ao Florent e tomar café à meia-noite e deixar você roubar meus cigarros e nunca achar os fósforos e contar pra você sobre o programa de TV que eu vi na noite passada e te levar ao oculista e não rir das suas piadas e querer você de manhã mas deixar você dormir mais um pouco e beijar suas costas e acariciar sua pele e dizer quanto eu amo seu cabelo seus olhos seus lábios seu pescoço seus peitos sua bunda sua
e
sentar nos degraus e fumar até seu vizinho chegar em casa e sentar nos degraus
e fumar até você chegar em casa e me preocupar quando você estiver
atrasada e me surpreender quando você chegar mais cedo e te dar girassóis e ir
à sua festa e dançar até não poder mais
e me desculpar quando eu estiver errado e ficar feliz quando você me perdoar e
olhar suas fotos e querer ter te conhecido desde que você nasceu e ouvir sua
voz no meu ouvido e sentir sua pele na minha pele e ficar assustado quando você
estiver zangada e um de seus olhos ficar vermelho e o outro azul e seu cabelo
cair para a esquerda e seu rosto parecer oriental e dizer para você que você é
linda e te abraçar quando você estiver ansiosa e segurar você quando você se
machucar e querer você toda vez que eu te cheirar e te ofender quando te tocar
e choramingar quando estiver do seu lado e choramingar quando não estiver e
babar nos seus seios e cobrir você de noite e sentir frio quando você tirar meu
cobertor e calor quando você não tirar e me derreter quando você sorrir e me
acabar por completo quando você gargalhar e não entender por que você acha que
estou te rejeitando quando eu não estou te rejeitando e pensar como você pôde
achar que alguma vez te rejeitei e pensar em quem você é e te aceitar de
qualquer jeito e te falar sobre o garoto da floresta encantada que atravessou o
oceano porque te amava e escrever poemas para você e pensar por que você não
acredita em mim e sentir tão profundamente que eu não ache palavras pra
expressar esse sentimento e querer te comprar um gatinho do qual eu teria
ciúmes porque ele teria mais atenção do que eu e deixar você ficar na cama
quando você tiver que ir e chorar como um bebê quando você finalmente for e me
livrar das pontas e te comprar presentes que você não queira e levá-los de
volta e pedir para você casar comigo e ouvir você dizer não mais uma vez
mas continuar pedindo porque apesar de você achar que eu não estava falando
sério eu sempre falei sério desde a primeira vez que te pedi em casamento e
vagar pela cidade achando que ela está vazia sem você e querer o que você quer
e achar que estou me perdendo mas saber que estou seguro quando estou com você
e te contar o que eu tenho de pior e tentar te dar o que eu tenho de melhor
porque você não merece nada menos do que isso e responder suas perguntas quando
eu preferir não responder e dizer a você a verdade mesmo quando eu realmente
não queira e tentar ser honesto porque eu sei que você prefere assim e achar
que está tudo acabado mas agüentar por mais dez minutos antes de você me jogar
fora de sua vida e esquecer quem eu sou e tentar ficar mais próximo de você porque é lindo aprender
a te conhecer e vale a pena o esforço e falar mal alemão com você e falar
hebraico pior ainda e fazer amor com você às três da manhã e de alguma forma de
alguma forma de alguma forma expressar um pouco deste esmagador embaraçoso
interminável excessivo insuportável incondicional envolvente
enriquecedor-de-coração ampliador-de-mente progressivo infindável amor que eu
sinto por você."
quinta-feira, 18 de julho de 2013
Quando uma francesa partiu meu coração
A verdade é que eu sou bissexual, mas por não exercitar, fiquei gay. Garotas sempre me atraíram. Entretanto, na minha inocência, sempre confundi essa atração por aquela afeição que nutrimos por filhotes de cachorro, velhinhos que dançam ou uma gostosa torta de chocolate. Tudo isso pode parecer loucura, mas foi o que me veio à mente naquela aula de historia dos Estados Unidos, quando minha colega francesa ajeitava os cabelos e deixava o pescoço liso à mostra. Como era bonito! Tão delicado que a brisa invernal do outro lado da janela poderia feri-lo. E eu, sentado na fileira de trás como um pré-adolescente em paixão platônica. Ou pior, um vampiro.
Preciso dizer que ela não era uma francesa típica. Na verdade, sua beleza parecia um mash-up que deu certo. Tinha ascendência indiana, o que explicava sua pele cor de oliva e os olhos negros como um poço-d'água. Da França, puxou a maquiagem pesada, o batom vermelho sempre nos lábios, a boina vermelha que volta-e-meia portava e as roupas que pareciam vir diretamente de uma passarela de moda parisiense. Quando o professor lhe perguntava algo, respondia em inglês com um simpático sotaque francês, sem abrir muito a boca para as vogais e sem pronunciar o "h" como "r". Grosso modo, era fantástica de ser observada.
Mas, afinal, porque ela me chamava tanto a atenção? Seria eu um bissexual enrustido!? Como explicar isso aos meus pais!? Apos todo o trabalho em aceitar o filho gay, agora eu teria que traumatizá-los de novo... Minha mãe iria chorar visto que a partir de agora eu teria mais 50% de chance de ter o coração partido e sofrer por amores infrutíferos, meu pai me xingaria porque eu mudo de ideia o tempo todo, meu irmão pegaria no meu pé pois... é meu irmão, e é isso o que irmãos fazem. Por que isso agora? Como uma simples francesa poderia mexer tanto comigo?
A verdade é que ela não era tão simples. De fato, era bastante charmosa na forma como cruzava as pernas, ajeitava o óculos de aro fino e apoiava o queixo nas mãos enquanto refletia sobre a a colonização a oeste do rio Mississípi. Falava com impetuosidade, mas se portava de uma forma frágil como um pacote de Ruffles. Até hoje, creio que transpirava perfume.
Apos semanas de reflexões introspectivas e de desesperadas tentativas de fazer com que me olhasse, decidi falar com ela. Cheguei atrasado de proposito, avistei uma cadeira vaga ao seu lado e sentei-me. Na primeira oportunidade, investi:
- Oi! Você entendeu por que o México estava enfraquecido antes da guerra com os Estados Unidos? Eu não peguei muito bem...
- Você não leu o texto para esta aula? - ela perguntou, de forma incisiva. Fiz que não com a cabeça e sorri. - Então se você não quer estudar, não atrapalhe os outros quando eles querem! - revidou rispidamente, e em seguida se virou em direção ao professor para me ignorar.
Nunca fui o mesmo depois dessa. Meses depois, conversando com uma amiga, cheguei à conclusão de que não sinto nada por garota qualquer. Acontece que algumas são tão belas que a gente acaba apreciando como uma obra de arte - por serem estéticas, profundas e intocáveis. Na busca do belo, ficamos hipnotizados. Fosse com a francesa ou com filhotes de beagle, o sentimento era o mesmo.
De qualquer forma, hoje já sei: entre uma garota e uma torta, prefiro a torta.
Preciso dizer que ela não era uma francesa típica. Na verdade, sua beleza parecia um mash-up que deu certo. Tinha ascendência indiana, o que explicava sua pele cor de oliva e os olhos negros como um poço-d'água. Da França, puxou a maquiagem pesada, o batom vermelho sempre nos lábios, a boina vermelha que volta-e-meia portava e as roupas que pareciam vir diretamente de uma passarela de moda parisiense. Quando o professor lhe perguntava algo, respondia em inglês com um simpático sotaque francês, sem abrir muito a boca para as vogais e sem pronunciar o "h" como "r". Grosso modo, era fantástica de ser observada.
Mas, afinal, porque ela me chamava tanto a atenção? Seria eu um bissexual enrustido!? Como explicar isso aos meus pais!? Apos todo o trabalho em aceitar o filho gay, agora eu teria que traumatizá-los de novo... Minha mãe iria chorar visto que a partir de agora eu teria mais 50% de chance de ter o coração partido e sofrer por amores infrutíferos, meu pai me xingaria porque eu mudo de ideia o tempo todo, meu irmão pegaria no meu pé pois... é meu irmão, e é isso o que irmãos fazem. Por que isso agora? Como uma simples francesa poderia mexer tanto comigo?
A verdade é que ela não era tão simples. De fato, era bastante charmosa na forma como cruzava as pernas, ajeitava o óculos de aro fino e apoiava o queixo nas mãos enquanto refletia sobre a a colonização a oeste do rio Mississípi. Falava com impetuosidade, mas se portava de uma forma frágil como um pacote de Ruffles. Até hoje, creio que transpirava perfume.
Apos semanas de reflexões introspectivas e de desesperadas tentativas de fazer com que me olhasse, decidi falar com ela. Cheguei atrasado de proposito, avistei uma cadeira vaga ao seu lado e sentei-me. Na primeira oportunidade, investi:
- Oi! Você entendeu por que o México estava enfraquecido antes da guerra com os Estados Unidos? Eu não peguei muito bem...
- Você não leu o texto para esta aula? - ela perguntou, de forma incisiva. Fiz que não com a cabeça e sorri. - Então se você não quer estudar, não atrapalhe os outros quando eles querem! - revidou rispidamente, e em seguida se virou em direção ao professor para me ignorar.
Nunca fui o mesmo depois dessa. Meses depois, conversando com uma amiga, cheguei à conclusão de que não sinto nada por garota qualquer. Acontece que algumas são tão belas que a gente acaba apreciando como uma obra de arte - por serem estéticas, profundas e intocáveis. Na busca do belo, ficamos hipnotizados. Fosse com a francesa ou com filhotes de beagle, o sentimento era o mesmo.
De qualquer forma, hoje já sei: entre uma garota e uma torta, prefiro a torta.
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