quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Assinatura (editada)


Nossa, que canseira!
Pensar me consome muito
Me põe entre a cruz e a espada
E assim deslizo numa escada
Até o fim dos meus degraus...
Erguendo prédios de papel
Neste reino de loucura
Dos sapatos do bom moço
De cachecol no pescoço 
Paletó de gente fina
E perfume bon vivant.

Chegou o Carnaval!

"Vamos colorir os slides?"
Cores? Por que cores? Você quer Carnaval?
Você sente falta do Brasil? Vocês
São muito engraçados!

Somos muitos engraçados
Este reino me elegeu como bobo-da-corte
E agora o chapéu me pesa os ombros
Odeio este tipo de classificação
Se digo"não", é uma pena
Tinha tanto futuro!
E assim revelo todos os furos
Numa roupa bonitinha, mas cafona
E em passos de uma dança clichê
Celebro a matéria das coisas
O sentido que me dão ao nome
E à minha incitada consternação.

Nossa, que fome!
Hora de aceitar todas as rasuras
Me amar com a nova letra
E comprar justas canetas!
Hei de pintar no meu corpo a minha rubrica
Virar a mesa da sorte
E jogar o meu baralho a meu favor...
Vestir a tunica da vida, viver bem
O sofrimento e a nostalgia, 
Para na hora da alegria e da vitoria
Saber criar a historia dos meus atos
Com meu devido nome...

(sem morais nem seus contos
rimas ou inversões)

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Diarios

19/01/2013 No aeroporto de Madrid

Um teto bastante alto, construido para imitar ondas de um mar revolto. Bege, cuja textura lembra uma esteira de praia na qual mulheres despreocupadas se atiram para repousar. E eu sentado, sozinho, com um cansaço nos ombros e uma sede na boca.

Chove em demasiado.

Em Madrid me ponho a associar arquitetura ao mar. Precisaria de um mergulho?

O aeroporto é imponente. Cadeiras de trabalhado plastico, pintado de cinza, somadas às dantescas colunas de metal prateado, produzem um ambiente afogado em uma aura de modernidade. O piso de marmore, limpido. E o ar com cheiro de ferro. Televisões Samsung de 29 polegadas exibem um seriado espanhol de comédia de péssima qualidade. Ao menos a resolução da imagem é quase perfeita. Seu defeito é ser plastica demais. Boa demais.

São 06:47 e não ha almas vivas além de mim e alguns homens a encerar o chão. As unicas vozes vêm da televisão e das minhas palavras no papel. Na tela, uma bela jovem beija um velho gordo em um cemitério. Além do mundo da ficção, quantas pessoas fariam igual? E não se assustariam com a grande barriga como obstaculo... 

Ficcionalizamos na tentativa de ultrapassarmos limites. Penso isso enquanto encaro o horizonte através de uma grande janela de vidro a me separar de aviões e da pista de decolagem. Do mundo exterior. Do frio e da chuva europeia.

Como em uma redoma de vidro, estou a salvo do vento gelado e das preocupações do dia a dia. Nada de atenções ao trabalho, ao sofrimento, à saude, aos problemas dos outros, do mundo, da casa. Nada de aspirações ao futuro, nada de pressões e deveres. Nada de ambições. Precisamente agora, preciso apenas me ater à outra tela mais ao longe, cuja unica função é dar-me outro sentido de vida. Isto é, saber o horario e o portão do meu voo para Lyon. Depois disso, criarei outros sentidos. Retomarei meu nome e voltarei a me apossar de mim mesmo. Mas por enquanto não importa, eu não me pertenço, eu não me controlo. Quem manda é o aeroporto, e eu amorteço.

La fora esta escuro, mas os homens trabalham.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

a língua, entidade dos fluxos de vida e morte
pulso de sobrevivência e assassinato
aproxima e afasta.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

transmuta




(ou "expectativa e projeção")

você promete guardar todos meus segredos. 

não com a literalidade e segurança das palavras,
mas você promete.
e eu juro confiar-te todos os segredos,
me expandir até o coração surtar
saltar da boca e cair
na palma da tua mão.
hei de dançar uns passos de alegria,
cruzar o salão
e no fim dar doses de sangria
a todos os amigos 
sobretudo aos espanhois, os que fizeram a bebida.
de fato ha muito acontecimento no mundo,
mas hoje estou em noite de verão preguiça.
estou de acordo, estou muito desolado:
a cada vez em que paro, pareço andar mais rapido,
e numa marcha sem fim
sigo no caminho contrario
e a mãe diz cuidado, meu filho,
durante a madrugada
os lobos uivam tanto
mas tanto
que dentro da gente
aflora a lua cheia
e cresce o sentimento.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

hábitos

(ou o mistério do complicado)

pra esconder tristeza sorri

pra ser feliz se sacrifica
pra fugir da morte dizem vida
pro sono, chá de camomila
pra provar afeto maltrata
pra ser gentil abre a lata
pra ganhar beijo, primeiro vira a cara
pra dançar senta e espera
pra descansar aguarda férias
quando odeia, ainda diz que ama
se quer falar faz silêncio
pra silenciar não fica quieto
e não deixa o pensamento respirar
pra se acalmar manda mensagem
e assim numa viagem
o ser humano comunica
o mundo todo
ao contrário

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

às dezessete horas

e eu vejo tanta gente que um dia vou esquecer o rosto, o rosto e os olhos e a boca que são tão importantes... e um dia vou esquecer seus nomes - mais tarde o meu -, para no fim da minha era não ter ninguém a chamar nos momentos de tortura...

*


eu entendo uma parte tua, mas a outra que não consigo me enlouquece.

*

meu amor, você corre atrás de algo que nunca vai alcançar, e depois no fim vai chorar chorar, porque de burro e inteligente todos temos um pouco, e eu digo isso para ressaltar que você está em um mar de burrice, meu deus, quanta burrice, numa corrida cuja linha de chegada está na sua própria cabeça, isso mesmo, na sua própria cabeça. 

*
olá, gabriel, como vai?
de mesmo assim não vai

*

espera meu convite de volta, 
mas eu digo apenas tchau e fecho a porta

*
esta sucessão de fatos minúcia

traz ligeiros de angústia
formigas tomando meu corpo
me deixando todo louco todo torto de loucura
à procura de saquinhos de chá
será que outras bocas os tomaram?
e andaram no meu quarto
sentaram-se na cama
e como de um bule de chá
beberam até a última gota
de um homem de vontades, de vontades de voar
um homem que após severos goles
temperaturas negativas
e incontáveis xícaras
encontrou-se prostrado em medidas
gírias incompreendidas
e cacos quebrados 

em linhas de fúria, muita fúria
no tapete da minha casa

domingo, 16 de dezembro de 2012

"no adeus eu sempre te pertenço"

Apesar de toda a lucidez, de toda a consciência,
epifania, luz e razão
seguimos na crença da posse de gentes, braços e cabeças
e como em uma cruel dança da morte
a musica acaba
e o que era bom, se foi
o perfume que restava voou
com a parte de um ser que restou
na sombra de uma frase
na ponta dos dedos
na sola do sapato
e no rolar dos dados 
de uma dança 
que sem dar nenhuma volta
ainda saiu do lugar

nos confins de uma historia sem fim.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

cativa

As horas passam e não ha ninguém para testemunhar esta bruma de dentro.

*

Após todas as certezas, cada vez mais os objetos desfalecem. Os cristais se enchem de pó e os tecidos adquirem cores mortas, enquanto ressoam o silêncio da noite anterior. O vinho meticulosa e despretensioamente servido, o vapor da pizza que contrasta com a fria temperatura do ambiente. Essas oposições formam uma imagem nebulosa à qual nos apegamos em momentos de solidão.

Eu gosto de estar só, mas não gosto de solidão. Meu nome é ser humano.

*

Preciso continuar minha conversa da virgula. Minha discussão comigo mesmo.

*
As pessoas não sabem, mas enquanto realizam seus movimentos mais banais do dia a dia, me quedo compenetrado e recluso, a fixar uma imagem mental de uma cena qualquer em minha memoria. O jeito de arrumar o cabelo com os dedos da mão direita. O sorriso da chegada no ponto de encontro na carona da bicicleta. A expressão de felicidade com o horizonte absurdo. O "hnnnnn" com o sorvete na boca. 

Estas detalhadas e minusculas figuras do cotidiano constroem o ninho de afeto - refugio nas horas de saudade ao crepusculo, no cair da neve ou nos longos minutos de deslocamento na bicicleta. E pouco a pouco, estas pessoas se adornam em mim, como se me dessem um pouco da personalidade embalada em papel de presente. Ao transmutado olhar de agora, o passado é sempre mais bonito. Mas nem por isso apenas uma percepção falsa, visto que também me construo todos os dias, para mim e para os outros. E o que tenho de ti não é nada além de uma imagem que criei de ti, e o que tens de mim é uma imagem que criaste de mim de acordo com as esparsas e arranjadas ações e informações que forneci. 

O mundo é uma imagem.

Mas te apercebo com carinho e plenitude. E o coração incha e inflama.

Deus, as pessoas entram pela porta, sentam-se e vão embora, e ficamos prostrados na entrada a olhar as costas de uma silhueta que se assemelha a muito pouco daquilo que testemunhavamos antes. Ideias ressoam.

Fechamos a porta, a sós com lembranças do cotidiano.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

tiragem

Muitas vezes é perdido que se acha. Na busca de uma loja no centro, desviando da multidão e de olhares dos muitos ninguéns. Seja na cidade pequena ou grande. Como um cachecol perfeito para o pescoço, adorna-se o pensamento que subtrai. E com a consciência plena, morre uma parte velha da gente - que cutucava, cavocava, fazia um ninho de angustia. E você olha para tras e vê aquele seu pedaço deitado no chão, coberto de sujeira de calçada e com um aspecto do passado. Você não é mais aquela parte. Sortes que ja lhe pertenceram não dizem mais a seu respeito. 

E quando o que você ja fez e pensou não diz nada além de algo que você ja fez e pensou. 

Você é tudo aquilo que tem para frente. Mais pessoas virão, mais olhares desconhecidos, centros de outras cidades, muito sol e chuva. Vez em quando neve e bruma. E outras partes seguem a cair por terra, como fotografias nostalgicas na estante do quarto ou naquela pasta escondida do computador. 

Eu não quero saber. 

Deveras dificil tentar reconhecer-se em imagens cuja veracidade é posta em prova ao entrar em contato com o presente. E aquilo que você pensou parece tão falsificado quanto o barulho de mar que se ouve ao colocar as duas mãos em concha no ouvido. Você é o que deseja agora ou o antes de tudo aquilo que viveu? 

"Os dois!"

Mas a sua maior parte. De si. A inocência e a virgindade do mundo postas à prova. Você na mão de pessoas. E pessoas na sua mão. Amores de uma noite. Amigos de uma tarde. 

A verdade.

Estas partes que caem durante a caminhada são a prova de que a vida segue um percurso do qual não temos tanto controle. E resta-nos olhar para tras, constatar a pele morta no piso e francamente esperar que a pele atual seja melhor do que a anterior.

O quebra-cabeças. Uma parte do mundo dentro de mim e meu ser aos quatro ventos. 

O tempo. Algo que constato e ja passou.

*
Eu passei um semestre dentro de mim, a observar este continente estranho, esta paisagem nova e estas pessoas que na minha latina opinião são frias e distantes. E como a nuvem gorda e negra, chegou minha hora de chover. Eu voltei para o Minha Polaroide.

sábado, 8 de dezembro de 2012

das considerações

Ainda me apercebo confuso ao fazer esforços de manejar este novo eu que toma meus cabelos, meu corpo, meu olhar. E me pega pela mão e formula meus gestos. De onde vêm estas atitudes, a cada dia me questiono. Qual é a gota de agua que faz a represa se soltar? E o lago entra em contato com o mar e faz qualquer coisa de novo.

Conhecer-se e se afirmar ao entrar em contato. 

Com o diferente. 

Serei sempre assim. Ou ao menos até amanha. E também eu estou agora incerto. Hoje vivo em um mundo onde todos habitam castelos magnificos e perfeitos, erguidos com areia de praia. E bebem espumante barata em frageis taças de cristal. 

Em que tipo de terreno me sedimento? 

Ah, o medo da eternidade.

* 

Escrevo em um teclado AZERT. Por consequência, muitos acentos não virão. Mas eu venho, eu sempre venho. A forma e o conteudo. De corpo e alma.