sexta-feira, 20 de abril de 2018

Limites

Quando criança, me agradava muitíssimo colocar a mão para fora da janela do carro e sentir o vento atravessar meus dedos. Depois fazia uma prancha, erguia o braço para cima e para baixo, dançava da esquerda para a direita, o membro como um super-herói rasgando o ar, surfando no vento. Não só o braço, mas o corpo todo se tornava leve, como se orientado por uma linha suspensa do céu. Ali eu era um boneco que, precisamente, me movimentava como desejasse. De certa forma, havia a sensação de controlar as circunstâncias. 

Por vezes me instrumentalizo e adquiro tamanha consciência de minha finitude a ponto de ver-me tal qual um robô: se estou ansioso, preciso correr por 15 minutos. Se as pernas doem, é hora de alongar os músculos. Devo meditar para aquietar a consciência intranquila. Vou escrever tarefas no papel para aplacar a ansiedade. Deus está no meu corpo e divide comigo a sua onipotência: aperto botões e obtenho disto resultados. Uma máquina de carne e de sangue, com um pouco de medo nas ligas. 

A inteligência do ser humano soa tão banal, de forma que atitudes são gatilhos para acionar ligações entre neurônios, estimular reações químicas que culminam em sorrisos, alívios, tiques, resmungos. 
A juventude me escorre pelos dedos e assisto a tudo de fora, como farelos de areia convergindo em uma ampulheta. Ali há apenas uma saída possível.