quarta-feira, 23 de junho de 2010

Pente Fino

Antes de fazer cada ação forte, ele a escrevia num papel. Tudo o que decidia, ia para o papel. A mãe lhe ensinou isso quando pequeno, para calcular as consequências e controlar o destino. Mudar de escola? Papel. Ficar com a guria? Papel. E sempre dava certo, ao menos quando o papel era riscado. Escrevia as decisões ali como se fosse um diário: do amanhã, era o diário do amanhã. Em cada folha, fixava-se o futuro.

Num dia, tomou um porre e chegou bêbado em casa. Acordou de ressaca na outra manhã e encontrou um papel ao lado do travesseiro, que dizia, matar-se. Entrou em pânico porque

O meu futuro até hoje
Por mim foi escrito
Estático mas seguro
Seguro nem tão certo.
O meu seguro era o rabisco
- Porém isto de ser desenhado
Está com nada
(O que importa
É outro mundo)

Reconstituiu passo por passo seus passos já passados e só aumentou dor de cabeça. Desceu até a cozinha e passou pela mãe - sem nem se importar em esconder a cara de ressaca ou o fedor de cigarro. Pegou um pacote de bolacha de água e sal e saiu de casa: a fim de dessalgar suas horas.

Horas amargas: horas salgadas.

Foi ao cinema e entrou sem pagar. Como entrou, não importa: o que é importa é que entrou. E na cadeira mais ao fundo se sentou para assistir ao drama mais melodramático que existia para ocupar sua cabeça para evitar seus pensamentos para quem sabe resolucionar alguma questão existencial que nem mesmo Sócrates desvendou quando na verdade Sócrates não desvendava, apenas perguntava. No filme, uma mulher ia à Africa adotar crianças ilegamente, mas foi pega. Ela não era má, só queria cuidar das crianças. Mas foi pega e mandada à prisão. As crianças choraram. Ele riu. A mulher morreu. As crianças morreram de fome. Ele comeu as bolachas de água e sal. As luzes do cinema se apagaram. Ele amassou o papel e jogou no chão. 

Foi-se embora.

Do teu gesto mais pequeno
Escreve-se o destino.
E do teu papel jogado fora
Passaste o pente fino
Na tua história.

3 comentários:

Marcel Hartmann disse...

O filme não existe, eu que inventei.

D i c a disse...

Anda tão criativo, Marcel. Mais do que o de costume, mais que o habitual. Conto bem escrito me faz sentir vontade de reler sem parar.
Passei adiante, porque vale a pena.

.. Tantas vezes já passei pente fino em minha história, tantas, tantas!

beijo.

Ana Luisa Pacheco disse...

PUTA QUE PARIU!
muito bom, mesmo.

(-Mãezinha me pediu para guardar coisas em caixas, pensamentos.Me pediu para separar a vida em pequenas caixas dentro de mim.Só que hoje elas estão vazias.)

Você tem se superado, se inovado.
aprendi com esse texto, para mim, quem fazia perguntas era sócrates.