domingo, 16 de dezembro de 2012

"no adeus eu sempre te pertenço"

Apesar de toda a lucidez, de toda a consciência,
epifania, luz e razão
seguimos na crença da posse de gentes, braços e cabeças
e como em uma cruel dança da morte
a musica acaba
e o que era bom, se foi
o perfume que restava voou
com a parte de um ser que restou
na sombra de uma frase
na ponta dos dedos
na sola do sapato
e no rolar dos dados 
de uma dança 
que sem dar nenhuma volta
ainda saiu do lugar

nos confins de uma historia sem fim.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

cativa

As horas passam e não ha ninguém para testemunhar esta bruma de dentro.

*

Após todas as certezas, cada vez mais os objetos desfalecem. Os cristais se enchem de pó e os tecidos adquirem cores mortas, enquanto ressoam o silêncio da noite anterior. O vinho meticulosa e despretensioamente servido, o vapor da pizza que contrasta com a fria temperatura do ambiente. Essas oposições formam uma imagem nebulosa à qual nos apegamos em momentos de solidão.

Eu gosto de estar só, mas não gosto de solidão. Meu nome é ser humano.

*

Preciso continuar minha conversa da virgula. Minha discussão comigo mesmo.

*
As pessoas não sabem, mas enquanto realizam seus movimentos mais banais do dia a dia, me quedo compenetrado e recluso, a fixar uma imagem mental de uma cena qualquer em minha memoria. O jeito de arrumar o cabelo com os dedos da mão direita. O sorriso da chegada no ponto de encontro na carona da bicicleta. A expressão de felicidade com o horizonte absurdo. O "hnnnnn" com o sorvete na boca. 

Estas detalhadas e minusculas figuras do cotidiano constroem o ninho de afeto - refugio nas horas de saudade ao crepusculo, no cair da neve ou nos longos minutos de deslocamento na bicicleta. E pouco a pouco, estas pessoas se adornam em mim, como se me dessem um pouco da personalidade embalada em papel de presente. Ao transmutado olhar de agora, o passado é sempre mais bonito. Mas nem por isso apenas uma percepção falsa, visto que também me construo todos os dias, para mim e para os outros. E o que tenho de ti não é nada além de uma imagem que criei de ti, e o que tens de mim é uma imagem que criaste de mim de acordo com as esparsas e arranjadas ações e informações que forneci. 

O mundo é uma imagem.

Mas te apercebo com carinho e plenitude. E o coração incha e inflama.

Deus, as pessoas entram pela porta, sentam-se e vão embora, e ficamos prostrados na entrada a olhar as costas de uma silhueta que se assemelha a muito pouco daquilo que testemunhavamos antes. Ideias ressoam.

Fechamos a porta, a sós com lembranças do cotidiano.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

tiragem

Muitas vezes é perdido que se acha. Na busca de uma loja no centro, desviando da multidão e de olhares dos muitos ninguéns. Seja na cidade pequena ou grande. Como um cachecol perfeito para o pescoço, adorna-se o pensamento que subtrai. E com a consciência plena, morre uma parte velha da gente - que cutucava, cavocava, fazia um ninho de angustia. E você olha para tras e vê aquele seu pedaço deitado no chão, coberto de sujeira de calçada e com um aspecto do passado. Você não é mais aquela parte. Sortes que ja lhe pertenceram não dizem mais a seu respeito. 

E quando o que você ja fez e pensou não diz nada além de algo que você ja fez e pensou. 

Você é tudo aquilo que tem para frente. Mais pessoas virão, mais olhares desconhecidos, centros de outras cidades, muito sol e chuva. Vez em quando neve e bruma. E outras partes seguem a cair por terra, como fotografias nostalgicas na estante do quarto ou naquela pasta escondida do computador. 

Eu não quero saber. 

Deveras dificil tentar reconhecer-se em imagens cuja veracidade é posta em prova ao entrar em contato com o presente. E aquilo que você pensou parece tão falsificado quanto o barulho de mar que se ouve ao colocar as duas mãos em concha no ouvido. Você é o que deseja agora ou o antes de tudo aquilo que viveu? 

"Os dois!"

Mas a sua maior parte. De si. A inocência e a virgindade do mundo postas à prova. Você na mão de pessoas. E pessoas na sua mão. Amores de uma noite. Amigos de uma tarde. 

A verdade.

Estas partes que caem durante a caminhada são a prova de que a vida segue um percurso do qual não temos tanto controle. E resta-nos olhar para tras, constatar a pele morta no piso e francamente esperar que a pele atual seja melhor do que a anterior.

O quebra-cabeças. Uma parte do mundo dentro de mim e meu ser aos quatro ventos. 

O tempo. Algo que constato e ja passou.

*
Eu passei um semestre dentro de mim, a observar este continente estranho, esta paisagem nova e estas pessoas que na minha latina opinião são frias e distantes. E como a nuvem gorda e negra, chegou minha hora de chover. Eu voltei para o Minha Polaroide.

sábado, 8 de dezembro de 2012

das considerações

Ainda me apercebo confuso ao fazer esforços de manejar este novo eu que toma meus cabelos, meu corpo, meu olhar. E me pega pela mão e formula meus gestos. De onde vêm estas atitudes, a cada dia me questiono. Qual é a gota de agua que faz a represa se soltar? E o lago entra em contato com o mar e faz qualquer coisa de novo.

Conhecer-se e se afirmar ao entrar em contato. 

Com o diferente. 

Serei sempre assim. Ou ao menos até amanha. E também eu estou agora incerto. Hoje vivo em um mundo onde todos habitam castelos magnificos e perfeitos, erguidos com areia de praia. E bebem espumante barata em frageis taças de cristal. 

Em que tipo de terreno me sedimento? 

Ah, o medo da eternidade.



Escrevo em um teclado AZERT. Por consequência, muitos acentos não virão. Mas eu venho, eu sempre venho. A forma e o conteudo. De corpo e alma. 

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Bed silence





"No, keep it like this", you said. Then you closed your eyes
And released my hands.
Such as a dizzy widow, you deny
Just to say the opposite. But I am fatigué. Plein.
I stare the blue aquarium, near the door
And I can't avoid seeing a black hole dragging myself
To the same little, ridiculous jar. Jane, the psychiatrist,
Says I should take my turn when it's necessary.
So I think we need to put some facts on the bed.
I'm not into you as you're into me
Though you're still inside me, an absolute parasite, draining my energies.
I stare at you, with a noisy silence
Waiting for the turn, so I can open my mouth
And pray for the day
We may be stronger.

(Pause)

(Pause)

My god, this hurts and I can't stand the pain.
Could you stop for a minute? Time is infinite
And so is this moment. Plato's strenght for now.
In front of a cave, after climbing a mountain
A tender wind that could

Bring me a breath of kindness
Like a kiss from the future
Or abstract images. Incomprehensible art:
And I am too tired to understand. But of course you want to try it,
You just love epiphany.
The moment when you see nothing
And then a white light
No train or end
Just the feeling
Your ugly scar in the chest, pulling for a place you don't know

But you'll end at something. You do not wish
To stay quiet. Heavy words fall out from your mouth
Like a dead butterfly.
You'll think every quote was a waste of time
Even though you don't have a clock.
The hours are running, chéri. One and a half, precisely.
We have to go back to bed. But I do not want to.
I want to leave. And no,
I do not want to keep like this.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Segurança

(ou "logicismos")


A floricultura em frente ao cemitério,
O epitáfio sobre a lápide,
O morto debaixo da terra.

Por detrás da obviedade dos atos
E da correta posição dos fatos
O sentido do mundo
Segue no seu devido lugar.

domingo, 30 de setembro de 2012

Dialogos II

Em meio a um salão opulento com paredes altas, um chão enjoadamente limpo, um silêncio de arte e uma temperatura gelada, encontramos quatro poltronas de couro. Rodeados por pinturas renascentistas de três metros de altura, com anjos levantando Maria Madalena pelas vestes, romanos em batalhas e Davi prestes a imobilizar Golias, decidimos dar um tempo e parar de decifrar quadros e esculturas. 

Sentamo-nos com dor nas costas e uma secura na alma.

- Sabe, temos uma lista de tarefas a seguir que me fazem pensar que o mundo não pode prover felicidade a todos. - me disse, a quebrar a ausência de som.

- Por exemplo? - perguntei.

- Arranjar um namorado, casar, ter filhos, conquistar um diploma, obter um trabalho, ser bem-sucedida profissionalmente, ficar bonita, me vestir sempre na moda, ir ao cinema, ler livros, me tornar inteligente e culta, criar uma família na qual eu traumatize meus filhos o menos possível, ter amigos ao meu redor e continuar em um circulo sem fim, que me deixa estranha e atordoada. E, ironicamente, cada vez menos humana. 

Silêncio.

Silêncio.

- E se não tenho sucesso em algo é porque falhei. Pois não fui boa o bastante. 

Silêncio.

- Eu nunca vou ser boa o bastante.

(quero chorar e me fechar de tudo)

Silêncio.

- Nós somos incrivelmente banais. E eu encaro isso e torno-me mais leviana ainda, por pensar que sabendo disso fico mais inteligente. E quanto mais consciência do mundo eu crio, mais me ponho alienada. Temo me trancafiar em uma concha vazia, ou em uma gaveta mofada da qual eu julgue o mundo por detrás da minha frieza. 

- Você não é fria - atalhei. Se foi uma resposta idiota, não sei, mas precisava levantar-lhe a moral em meio ao discurso catastrófico-suicida. Como a provar tudo o que me falou, sorriu em gratidão e disse: "Muito obrigada". 

Levantou-se e saiu em direção a uma pintura de um pequeno e gordo anjo com a face da curiosidade, parado em frente ao portão do inferno a observar o diabo em um trono. Achei a cena uma metáfora mórbida e absurda e decidi sair daquele lugar. Certas visões simplesmente não necessitam de testemunhas. 

domingo, 23 de setembro de 2012

I am vertical

Sylvia Plath

But I would rather be horizontal.
I am not a tree with my root in the soil
Sucking up minerals and motherly love
So that each March I may gleam into leaf.
Nor am I the beauty of a garden bed
Atracting my share of Ahs and spectecularly painted,
Unknowing I must soon unpetal. 
Compared with me, a tree is immortal 
And a flower-heat not tall, but more startling.

Tonight, in the infinitesimal light of the stars,
The trees and flowers have been strewing their cool odours.
I walk among them, but none of them are noticing. 
Sometimes I think that when I am sleeping
I must most perfectly resemble them - 
Thoughts gone dim.
It is more natural to me, lying down.
Then the sky and I are in open conversation,
And I shall be useful when I lie down finally:
Then the trees may touch me for once, and the flowers have time for me. 

terça-feira, 11 de setembro de 2012

In praise of my sister

wislawa szymborska

"My sister doesn't write poems, 
and it's unlikely that she'll suddenly start writing poems. 
She takes after her mother, who didn't write poems, 
and also her father, who likewise didn't write poems. 
I feel safe beneath my sister's roof: 
my sister's husband would rather die than write poems. 
And, even though this is starting to sound as repetitive as Peter Piper, 
the truth is, none of my relatives write poems.

My sister's desk drawers don't hold old poems, 
and her handbag doesn't hold new ones. 
When my sister asks me over for lunch, 
I know she doesn't want to read me her poems. 
Her soups are delicious without ulterior motives. 
Her coffee doesn't spill on manuscripts.

There are many families in which nobody writes poems, 
but once it starts up it's hard to quarantine. 
Sometimes poetry cascades down through the generations 
creating fatal whirlpools where family love may founder.

My sister has tackled oral prose with some success, 
but her entire written opus consists of postcards from vacation 
whose text is only the same promise every year: 
when she gets back, she'll have 
so much 
much 
much to tell."

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Restaurant

Why did they send me this plate?
I didn't order it
I do not enjoy meat
And I don't even like this drink.

Such as a clock with no pointers
Life has always been a masochist
Providing me what I don't want
At the wrong time and place.

How can I manage a pen-bird
A fish-man, a cleaner-fly
Or anything else that doesn't make sense for the moment?
Like food when I'm not hungry
A kiss when I am begging to be alone
Loneliness when I wish for a hug.

Whenever I'm down, I write
That's why my words are rarely happy
I believe that's logical
When I'm ok, I smile
I do not write
I do not have name
And I don't want any masks for my face.

For all my life I've been living before the right time
(I go to bed at eleven-thirty
Not twelve)
Perhaps that's why I keep writing
Even without the right words
Or loving
Without anyone to love.

domingo, 12 de agosto de 2012

diálogos


"Como você pôde entrar? Eu não estava
sozinho!". Estamos simplesmente cansados de nos martirizar.
Queremos algo além de alegorias e feitos heroicos.
"Há este espaço vazio
que insiste em consumir mais fogo". Queremos menos pressão
e mais sinceridade.
"A sala de estar não é a mesma
sem suas fotografias. Sem a sua moldura
vazando meu rosto
e dando forma e conteúdo ao abstrato". Faltando
palavras, gestos, cores. Como quem escreve
para dar nome aos bois. "Você gosta de carne?"
"Não. Desde pequeno eu rejeitava
os pedaços no carreteiro de sábado.
Decerto é por isso que não cumpro
qualquer das minhas decisões". E eu, que jamais pude segurar
uma corda que pudesse amarrar
este demônio de dentro? Que solta fogo e sacode
quem toca e quem ama. "Às vezes o tempo urge
como monstro. Quando da hora de acordar
e queremos dormir. E no sonho
acordamos bem cedo. E no final não".

No final é sempre não, ele me diz.
E me toca o coração, gentil. Repete que não é passageiro
Que tudo o que passou, passou
Que hoje é diferente e diz que sim.
Faz de tudo pra mim
Como se a vida fosse regalos.
Faz sentido eu inseguro? Temer
Perder tudo que tenho...
Como uma criatura masoquista louca
A achar que não merece nada.
Porém eu quero sempre mais.
Os milagres não me satisfazem.
Entre o muito e o bastante, quero o mais um pouco
Além do limite. Assim me transbordo
E me contenho
Até o mundo acabar
Ou alguém dizer que sim
Para cessar este desejo
De concertar as faltas
Que revejo
Na desordem do mundo que invento
No universo da minha cabeça.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

amigos

Sabrina insiste na ideia de que repetir seguidamente "não" para si sempre dá certo na hora de se convencer. Ou que pensar positivamente é melhor. Primeiro senta ao meu lado na cama e encara a parede com cartazes de xilogravuras vermelhas. Tem o olhar perdido, como se repousasse no passado. E eu, que queria pedir conselhos, fico quieto, visto que a urgência dela em sair de si é maior do que a minha. Calo-me e volto-lhe a atenção: perdido em meu egocentrismo e sofrimento, perguntei-lhe como tem passado nos últimos dias? Mais de uma, duas vezes? Não tenho certeza. Por via das dúvidas, é melhor me certificar.

- Aconteceu alguma coisa nova?

- Não. Nada.

Tudo. E mais um pouco. Sabrina encara os desenhos colados na parede como forma de descansar a vista, porque de fato está com o olhar dentro de si. Em meio ao hermeticismo de costume que ela tem, não faço ideia do que está lhe acontecendo. Como amigo, me resta captar rastros, cheiros de carência, solidão, angústia. Seguidamente me pergunto, ela quer um abraço? Se eu sorrir, ela se conforta? E vou testando o terreno, como um cego com bengala. Ela não diz nada e prefere este desdizer que dá a entender tudo, por conseguinte nada. Com voz de comedido interesse, pergunta-me:

- Aconteceu alguma coisa nova? 

- Não. Nada.

Tudo, mulher. E mais um pouco. Nesta semana morri e renasci diversas vezes, e minha cama me era sagrada como um túmulo. Porém não falo nada, já que a menor palavra proferida será demais em comparação ao que Sabrina me disse até agora. E não quero ser o amigo que suga toda a atenção para si, como um cansativo buraco-negro de festas, que é como chamo as pessoas que, em um grupo social com o qual não têm tanta intimidade, fazem excessivos comentários - muitos deles vazios, descontextualizados ou mesmo dispensáveis. Enquanto minha amiga continua a encarar os círculos vermelhos em um plástico grudado na parede, fico quieto. Morno. Um vulcão querendo queimar todo o meu quarto, minhas cobertas, roupas e fotografias. Mas hoje não é meu dia. Por isso, me indago: e tu, mulher? A quantas anda teu vulcão?

- Não tá com calor, não? - questiono.

- Não... - ela responde, com voz despreocupada.

- Sério? Eu tô.

Levanto e abro a janela. Depois fecho-a novamente e ajeito a cortina. Sabrina me encara e pergunta se quero ir no cinema. Digo que sim e peço que escolha o filme. Após pesquisar na internet, decide-se por um drama italiano. Digo que tudo bem, mas fico pensando: será que está quieta e quer ver um drama porque não consegue expressar as próprias angústias? E precisa ver em imagem aquilo que lhe falta em palavras, como se não pudesse achar as formas onde introduzir as lembranças que fazem com que sinta um aperto? 

Palpitam mais possibilidades: Sabrina está quebrada por dentro e precisa assistir a um filme para se identificar com personagens que a permitam projetar-se para a tela e enfim tomar uma dose de morfina para o sofrimento; Sabrina não aguenta mais pensar em Elis e no toque de Elis e no corpo de Elis e no sorriso de Elis e nem ao menos falar o nome de Elis, então quer ir comigo ao cinema para parar de pensar... em Elis; ou, última e mais improvável das hipóteses, Sabrina quer ir ao cinema. 

- Quer ir ao cinema? - pergunto.

- Como? Sim, fui eu quem chamei, esqueceu? - indaga impaciente.

- Ah, é... - reflito me fazendo de avoado. - E quer ver drama? - completo.

- Afinal, tu tá a fim de ir no cinema ou não? - questiona com um timbre desregrado.

Quero, sim. E vamos apressados para chegar a tempo. No caminho, ensaio algumas conversas, mas Sabrina foge de todas. Deus, ela faz tanto silêncio que às vezes irrita. Mas talvez agora haja um real porquê - se é que precisa de um motivo para ficar quieta. Acho que não, no final das contas. Se me destaco por ser angustiado e falar demais sobre o que me preocupa, minha amiga tem o mesmo nível de ansiedade, porém sem externar sequer um traço. Em um dia qualquer, sentados em um bar, me disse: conheci uma guria legal e tô ficando com ela há um tempo. Quanto tempo? Um mês. E não me disse nada? Tu não perguntou. Puta merda, eu penso, odeio essa resposta. Mais três meses. Acho que tô namorando. De verdade? Acho que sim, a gente tá dormindo uma na casa da outra direto. Elis. Uma garota legal. Daquelas que são extremamente simpáticas com desconhecidos mesmo com a certeza de que jamais vão vê-los outra vez. Uma garota legal. Sabrina perdidamente apaixonada, mas fria como a dizer que está acima da irracionalidade dos apaixonados e de suas besteiras. Sabrina, uma figura tão querida, tão boa e tão arrogante...

- Tá boa essa fileira aí do teu lado, senta.

- Meu, tem um velho aqui. Vamos na outra.

Ultrapassamos um casal, chutamos umas velhas e sentamos com o cuidado da lei do cinema: sempre tente sentar a duas poltronas de distância da pessoa mais próxima. Colocamos os casacos ao lado enquanto aparece a maldita lata da Coca-Cola a mandar desligar os celulares, indicar as saídas de emergência e proibir o fumo. Caralho, nem no cinema a publicidade me deixa em paz. Viro-me para comentar isso e encaro minha amiga. Sabrina chora desenfreadamente, aos prantos, com uma mão nos olhos e a outra no coração. Estico-me para que em seguida ela se recolha em meu abraço. Sabrina querida, protegida no escuro. 


*

Tudo isso como a provar que, quando os sentimentos não acham as sólidas palavras certas para se soltar, uma hora viram água e estouram todas as barragens.

domingo, 29 de julho de 2012

dureza

Todo ato é um símbolo
do peso daquilo que me esmaga
                   Psicose 4h48, Sarah Kane

não consigo escrever
com estas cordas que amarram
as mãos junto à boca, o corpo
vai caindo
as pernas primeiro
em seguida os joelhos
na terra, a lágrima
molha o solo seco
e minha cara amarronzada
com a sujeira que enobrece
a inocência da minha face.

não quero tecer
conjecturas
de uma vida de mares de tristeza
onde a leveza foi aos ares
e a dureza faz cantares
de destruição.
como podes ter tudo
e ao mesmo tempo nada?
"parece ter toda a plenitude!"
mas ainda assim 
um vazio que não tem fim

e tão babaca
uma essência espalhada em muitas esquinas
e precisa olhar para cima o tempo todo
como se assim fosse o tempo todo
uma cousa cheia de aforismos
e regras bem delimitadas.

quero dormir
atingir objetivos
perspectivas
depois dormir de novo
e acordar de novo
só para voltar a dormir...

o olho de deus
Deus ao meu lado
diz palavras de afeto
em um teto muito louco
de nuvens e chuvas
um avião caindo
e eu choro compulsivamente
porque minha vida falta muito
tudo me falsa e faz ausência
me exige uma correta postura
reta e ambiciosa
porque tens tudo e por isso podes tudo
e quero tudo 
e nada
dormir

o olho de Deus
ao meu lado
me observa com uma malícia sexual
de quem quer fazer sofrer 

só pelo prazer de observar
o outro perdido
com a pedra no caminho.
mas que terrível loucura!
será que só 
a tapas se aprende?
também me agrada ser feliz!
e chorar de alegria...


a vida

é uma mala cheia de roupas de viagem
mas estamos sempre de passagem
sem saber aonde ir, o que fazer
ser ou desfazer...

segunda-feira, 2 de julho de 2012

índice



há uma diferença gritante
entre o objeto e a sombra
apesar de ambos marcarem o chão
somente o primeiro sai de si 
se revolta e diz que não
agora quero já outro caminho
e ninguém vai me seguir
tanto faz tanto fez se sol ou chuva
se me ama ou me larga numa curva
e logo diz que o ar é rarefeito
e me diz frases de efeito
compara o céu à terra
a paz à guerra a pomba ao maremoto
e como um homem devoto
põe o terço e faz a cruz em água-benta
veste com cuidado sua jaqueta
embala na moto e diz até mais ver
e eu fico a contemplar algo que assombra
(oh meu deus 
há uma diferença gritante
entre o objeto e a sombra)...

segunda-feira, 25 de junho de 2012

s.v.p.


e você não para de me doer
e pelo amor de deus eu preciso que pare de doer
pare de me doer pare de me doer
se um dia eu não me levantar
jamais poderei dançar
um tango de vida qualquer
em uma noite de novo prazer

segunda-feira, 18 de junho de 2012

epifania



e eu, que era um homem de mil palavras
e de vários argumentos construídos
a cada dia que passa 
perco meus motivos
e como uma alma que lava
ou uma ave que rasa
saio mais puro a cada amanhecer
como um crente que ousa ver
o olho de deus
e sai a pular em ruas sem fim
fazendo estátuas de marfim
para secar a dor
e dizer sim ao que vier de amor...

terça-feira, 12 de junho de 2012

silêncios

encaramo-nos para mais uma vez sabermos que por detrás de nossos olhos há um mar de pensamentos rebeldes que insistem em quebrar as represas que erguemos. mas nos quedamos quietos, tristes, impassíveis, como homens do exército se prostram diante do frio que congela. apesar de ansiosos e imaturos, somos fortes e (por que não?) adultos em busca de motivos de se assentar como adultos. sabemos que o inverno, além de uma estação, é um estado de espírito - e ridículo conjugar aspectos meteorológicos com personalidades humanas mas a pieguice sempre esteve a nosso favor. hoje passa uma brisa carregada de um perigo capaz de atacar homens em baixa imunidade, vulneráveis sem uma manta no pescoço. ó, ceus. como faz frio em Porto Alegre.

- oi!

- oi!

- (eu gostaria do fundo da minha alma que você simplesmente mergulhasse em uma piscina escura tomada por algas e jamais emergisse sequer outra vez na minha frente ou nos meus pensamentos ou em qualquer rastro de superfície aleatória que insiste em brotar nos cantos dos meus nervos estressados que nos últimos tempos andam em frangalhos por fadigas emocionais que os velhos pais culpam na falta de vitaminas ou de exercícios dizendo 'você deveria comer mais aspargos' ou 'ande mais de bicicleta' enquanto no meu íntimo tudo o que eu quero é me jogar debaixo das cobertas e ficar por lá mesmo até qualquer outra coisa nova surgir visto que os livros pararam de me interessar e tudo o que me atiça são filmes que me causam aquele torpor no qual cesso de pensar em mim mesmo para projetar-me nas angústias de personas alheias que após o término do filmagem me lembram de como eu desejaria que você mergulhasse em uma piscina escura de esquecimento e anestesia)

- (eu sei o que você pensa e sei que você sabe o que eu penso mas é preciso que resistas a todas estas tentações de desmascaramento pois que para uma equilibrada vivência o ser humano deve conter todos os monstros que dariam a vida para sair da jaula que no caso é minha própria vida posta em liberdade que se estivesse livre já se tornaria presa da tua de uma forma que precisas conter tuas azarações e eu as minhas como adultos que resistem a um inverno rigoroso na Sibéria ou na Polônia em uma piscina escura de esquecimento e anestesia)

- tudo bem?

- claro, e contigo?

e assim seguem-se diálogos cuja única importância é a estética, em vez do conteúdo. patéticos, mas sempre a nos provar que graças a deus somos apenas o que fazemos e dizemos, e não aquilo que pensamos.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

engraçado

a gente precisa se contentar com nossas limitações. por exemplo, eu não sou engraçado. não que eu nunca faça alguém rir - quer dizer, eu não sou triste ou amargo ou ranzinza. sei fazer certos comentários que, em determinada hora e com determinadas pessoas, são divertidos e arrancam alguns risos.

mas só.

não me peça para contar uma piada - sou péssimo, e invariavelmente decepciono a todos enquanto conto da galinha que atravessa a rua. seja por falar muito rápido ou por não colocar a entonação certa nas palavras, ao meu redor as pessoas sempre acabam por me presentear com aquele riso de amizade nos momentos em que me arrisco a exercitar este lado fraco de mim mesmo. largam um hahaha ou a maior encarnação do rs. aquele riso que você dá para que o outro se sinta bem, tão automático que só percebemos sua presença quando interagimos com um desconhecido e estamos nos policiando para sermos agradáveis e simpáticos. vou rir para que ele ou ela não se sinta mal. então. as pessoas ao meu redor são simpáticas, é claro. graças a deus.

por mais que conviva com seres hilários e já tenha estudado o humor e a ironia em uma cadeira da faculdade, não tenho o dom da piada. minha mãe é extremamente séria e reservada e meu pai faz aquelas piadas de... vô. porque meu pai sempre fez comentários de um jeito que parece ser meu avô a falar. mas isso é só um adendo bobo, visto que não posso culpar meus sérios pais pelo fato de eu não ser engraçado.

até porque é leviano pensar que por não ser engraçado, sou sério. como que a equilibrar meu espírito dado a ausência de observações geniais, rio fácil, fácil. tudo me alegra e me impressiona. gestos me fascinam. se por uma sorte faço um comentário divertido, em geral é sobre minhas burradas - não por um egocentrismo maluco, mas é que eu sou a única coisa que conheço o bastante para elaborar um comentário humorístico. se eu pudesse ser algum comediante, gostaria de ser a Tina Fey. mas, infelizmente, assemelho-me no máximo à Sabrina Sato. porque às vezes meu dia é tão absurdo como uma caricatura.

semana passada, por exemplo. em um mesmo dia, fiquei uma hora em fila de banco, fui atropelado, três motoristas não me esperaram enquanto estava na frente da porta do ônibus e três entrevistados me deram bolo. disso eu sei tirar graça. agora, fazer uma observação hilariante, não. enquanto uns nasceram para fazer piadas, outros nasceram para rir. eu, nasci para rir. porque pior do que alguém que não é engraçado, é alguém sem-graça que pensa ser a criatura mais hilariante da face da terra. ao menos aqueles que riem sempre deixam alegres aqueles que fazem piada. ambos andam juntos e se completam. como yin e yang ou tom e jerry. ou o almoço do RU e o suco de acompanhamento. se bem que estes últimos se separaram há tempos...

quinta-feira, 7 de junho de 2012

junho

cada vez em que faço a negativa a alguém que vem me pedir esmolas ou fecho os olhos dentro do carro enquanto um jovem faz malabares, me pergunto se ainda resta em mim um pouco de humanidade, por mais que dê alguns trocados quando os tenha e não me falte. é assim que eu deveria me portar? é o suficiente que cenas como essas continuem a me agredir? isto é, qual a diferença entre não dar bola e seguir uma vida mansa e ter consciência e não fazer nada?


faz frio em Porto Alegre. o vento agride nossos rostos como se tivesse guardado uma profunda mágoa durante todo o verão. e chegou a hora de vingar-se.
mas não fazemos nada, somos apenas humanos.
queremos amar e ser amados.
queremos o bem. 

sexta-feira, 1 de junho de 2012

fotografias

uma fotografia é tudo
e ao mesmo tempo nada...

imagens são sombras do passado
que insistem em se fazer valer
com uma voz do que já foi
e não vem mais.

seja por juízo ou inocência
guardamos as lembranças
em prateleiras altas
nos seus devidos lugares
para que apenas deem seus ares
em segundos contados
de melancolia
e quando chega a hora certa
já estão mudas e quietas
sem vontade de dizer, ser
ou nos fazer sofrer

terça-feira, 29 de maio de 2012

verborrágica


é preciso buscar a Vida com vê maiúsculo, deixar-se tocar pelas possibilidades que o vento a envolver o mundo possibilita e nesta ventania louca sentir-se abraçado e dizer que enfim um sorriso é apenas um sorriso e como se alguém nos desse as mãos a verdade é que o ar nos mantém vivos mas ar demais também comprime, você já colocou a cabeça para fora da janela de um carro a 100km/h? você não consegue respirar porque tem muito ar que não para não para não para há umas formigas que insistem em cair nos meus braços e pernas enquanto me sento nesta cadeira apenas com uma samba-canção para escrever esta palavra e pensar que enfim é uma palavra engraçada - onde já se viu uma cueca chamada samba-canção? é preciso viver, sair de casa, abrir as janelas, andar pela porta e colocar a cara à tapa - se é para viver vou sofrer, se durmo é porque vou acordar, se é para amar, amo para dispor-me a odiar, converso para então desconversar e conhecer pessoas e situações novas a renovar nosso dia e mostrar uma rotina que acaricia mas afoga. ou seja.


cheguei à conclusão de que ambiciosos têm um pouco de baixa autoestima, visto que não se contentam com o que têm agora e precisam sempre de algo a mais - reconhecimento, ascensão, fama, glória, dinheiro, amor amor amor. gente que tem casa, comida, amor e família mas ainda assim chora e se apavora, morre de medo de desaperecer desconhecido ou de ficar só e por isso mesmo fica só, já que é assim que funciona - quanto mais tememos uma pessoa, mais focamos nela uma atenção e a tomamos como medida para todas as coisas. não quero ser como fulano e por isso sempre vou me medir a partir de fulano - não vou falar, agir, pensar ou refletir como fulano -  até que todas as minhas medidas sejam as de fulano e por fim eu me transforme nele. da mesma forma, pessoas morrem de medo de se machucarem e passo a passo se reclusam em uma concha vazada de onde assistem ao mundo em uma meia-luz, imaginando como deve ser lá fora e se as vozes são de felicidade ou de tristeza. o ar lá dentro é sempre frio e, por certo, os sonhos serão muito mais deliciosos, visto que quanto pior a realidade, maior é o sonho. entretanto, assim como a saudade não traz ninguém de volta, milhares de projeções e expectativas não tornam ideias realidade. 


vivemos um cotidiano estressante, atordoante, olhamos para o relógio a cada 30 minutos para termos certeza de que se passaram 30 minutos, chegou meio-dia e de repente está na hora do almoço, em seguida é necessário trabalhar, agora já precisamos voltar para casa e de repente é preciso se deitar. assim o dia passa e quem se esconde na mesmíssima concha vai vendo a vida passar, sem saber que um dia poderia sair e se mostrar uma bela joia rara, como se nascida de uma lágrima de felicidade. por sinal, incrível como a lua de hoje está bonita, você já percebeu? é preciso abrir as cortinas para ver...

quarta-feira, 23 de maio de 2012

uma constante




necessidade de doer em alguém como se apenas com a expressão do outro fosse possível registrar uma real importância de nós mesmoshoje falei com voluntários de asilos e eles diziam que para os velhinhos é de suma importância ter alguém com quem possam dialogar, ver e serem ouvidos. sem isso, ficam sem qualquer autoestima e não veem a vida valer a pena.


nós, sejamos velhos ou novos, vivemos nesta necessidade de ressoar no olhar, voz ou pensamento de alguém. precisamos do amor dos pais, da família, de amigos e de algum namorado ou namorada. caso algum destes campos não seja normalmente preenchido, entramos em uma loucura neurótica freudiana e nossa personalidade sai à procura de algo para repor esta perda de afeto. 


usamos muletas, pessoas, objetos. comemos demais, seduzimos consciente ou inconscientemente o outro para que goste de nós ou que a nós destine atenção, utilizamos roupas para sermos distintos sem, contudo, tornarmo-nos diferentes. precisamos instaurar certos limites - isto é, não gosto desse tipo de música e de filme, então não faço parte desta massa "amorfa". entretanto, por favor, não me considerem excêntrico demais a ponto de não quererem se aproximar de mim...


morremos de medo de muitas coisas: de não sermos bem-sucedidos, de não atendermos às expectativas de nós mesmos, da família, dos amigos e, pior, de desconhecidos. tememos ser iguais aos outros, passarmos despercebidos, não termos uma vida absurdamente excitante, cheia de grandes experiências marcantes que comprovem que nossa vida valeu a pena. hoje, tudo precisa valer a pena, caso contrário... não valeu a pena. o tempo de ócio não pode existir - precisa ser aplicado em academia, yoga, línguas, aulas e o que mais nos torne competitivos para o "mercado" - seja de trabalho, seja esta concorrência maluca na qual nos inserimos no cotidiano. 


ninguém pode ser triste. ninguém pode estar triste. se está, todos correm para indagar por que e passam a fazer macaquices para que a tristeza vá embora. ela, contudo, precisa ir embora? agimos como se a expressão normal do cotidiano fosse a felicidade, como se nosso estado normal fosse isso. entretanto, efetivamente somos felizes o tempo todo? diariamente nos decepcionamos conosco, com o outro, com as aulas, trabalho, família, dinheiro, enfim, com tudo o que ronda nossa vida. tudo isso faz parte de nós, pois podemos estar tristes com alguma coisa e feliz por outra. nós podemos gostar da felicidade. mas da tristeza também. e da melancolia. e da euforia. da efusividade, da emoção, do choro, do drama, da perspectiva, da expectativa, do sonho e da realidade - enfim, sentimentos que refletem nosso ser e nos fazem refletir sobre. 


sonhamos com cotidianos impossíveis de serem alcançados, criamos metas que não podem ser batidas e continuamos neste jogo de máscaras no qual sabemos que ninguém é feliz o tempo todo, porém precisamos aparentar em nossas fotografias, mensagens, sorrisos e artificiais observações sociais esporádicas. e assim vamos construindo tijolo de expectativa sobre tijolo da expectativa, até criarmos um muro em volta de nós mesmos que não permitirá qualquer contato com o mundo real - somente um sonho difuso e neurótico de uma vida perfeita e vazia.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

esquina

algumas pessoas machucam
e doem no lado esquerdo do peito
e você pensa que jamais vai sentir
aquela euforia sincera outra vez
mas um dia você vira a esquina
e de repente perde a mochila
para um moço muito bom e apessoado
ele pede perdão
dá um sorriso e você já viu
foi embora e nem percebeu
que a ferida sarou
o que era sangue estancou, o ponto foi curado
pois que entre o feito e o desfeito
a vida é um sujeito engraçado...

domingo, 20 de maio de 2012

samba

o melhor tempo não se vê passar
o melhor beijo tira o ar
e eu, que fiquei a ver estrelas
fiz um pedido a um cometa lá no céu
se tudo der certo, eu vou ficar feliz
e se não der, eu ponho meu chapéu
faço um samba de raiz
e saio cantando minhas tristezas por aí

quarta-feira, 16 de maio de 2012

shhhhhhh

deixar tudo bem quietinho, em silêncio...
ando com isso de ficar calado
tudo parece
desnecessário e excessivo
todos os comentários
os versos, falsetes e observações
e apesar de inconclusivo
a mim me importa a epifania desregrada
a brevidade dos acontecimentos e rimas
(rimas ricas, rimas pobres ou novelas dos dias comuns)
mas para que isso aconteça
antes que o dia anoiteça
alguns limites precisam ser impostos
como adotar certas posturas e noções
para que após diversas ilusões
uma pintura seja uma pintura
em vez de um breve disparate
de linhas e cores
como desenhos em forma de arte

sábado, 12 de maio de 2012

"Quero escrever por ter um ímpeto de me destacar num meio de traduzir e expressar a vida. Não consigo me satisfazer com a tarefa colossal de simplesmente viver. Ah, não, preciso organizar a vida em sonetos e sextinas e produzir um reflexo verbal para os 60-watts de minha cabeça iluminada. O amor é uma ilusão, mas poderia aceitá-lo de bom grado se pudesse acreditar nele. Agora tudo me parece distante e frio e triste, como um pedaço de xisto no fundo da grota - ou próximo e quente e impensado, como o corniso rosado. Meu Deus, faça-me pensar com clareza e lucidez; faça com que um dia eu entenda quem sou e por que aceito quatro anos de casa, comida, exames e trabalhos escolares sem questioná-los mais do que eu faço. Sinto-me cansada, banal, e agora me torno monossilábica e também tautológica."


Os Diários de Sylvia Plath, 14 de maio de 1953

quinta-feira, 10 de maio de 2012

645

somos todos filhos de deus
e somos filhos de deus, somos filhos de deus
e somos filhos de deus e somos filhos de deus
(e repetimos para não pensar no diabo)
somos filhos de deus, somos filhos de deus

sábado, 5 de maio de 2012

transformativa



ou os efeitos do tempo.

assim como nuvens percorrem o céu
chovem e vão embora
pessoas cruzam nossa vida
ao longo das horas. 
densas ou finas
desabam sobre nosso corpo. 
se umas irritam com trovões
e afogam com suas águas
outras são incríveis, e numa só pancada
provocam uma bela epifania
para que no outro dia 
vejamos o vento levar
(sem muito mistério)
aquela horrível tempestade para longe
(lá noutro hemisfério).

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Considerações (5)

As coisas não significam sempre o mesmo. Os atos, ainda que repetidos, jamais serão aquilo que representavam anteriormente, e eu não sou o mesmo homem apesar de percorrer as mesmas ruas, tomar os mesmos ônibus e manter os mesmos sonhos. O tempo passa e as areias do tempo rodam o mundo. Um dia, talvez de sol, talvez de chuva, você vai me encontrar em uma esquina e tentar cumprimentar aquele que antes conhecia, para no fim perceber que há muito me perdeu de vista. Seguiremos cada qual o seu caminho.


E olharemos para trás na esperança de nos reencontrarmos.
Mas não conseguiremos.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Pesos

Não me venhas com correntes
Não quero saber de correntes
Já me bastam as pessoas desmotivadas
Que insistem em prender meus pés ao chão
Não suporto este tipo de gente
E muito menos suas cordas sanguinolentas
Pelo simples fato
De estas serem frias e pesadas
O que além de causar calafrios
Me lembra do coração de pessoas secas
Que perderam toda a energia de vida
E só carregam uma pedra dura no lado esquerdo do peito.

domingo, 29 de abril de 2012

Diários I

pós-modernidade




não sei por onde começar. uma frase, contudo, pode introduzir: quem sou eu?


sei que meu autoconhecimento é bastante profundo. tenho consciência do porquê de ter agido de certa forma e não de outra, falado em vez de calado ou a razão pela qual larguei aquele comentário em uma hora incerta. sei dos motivos inconscientes que movem meus atos, conheço meus maiores defeitos e qualidades e procuro lidar com eles durante meu dia a dia, refreando impulsos egoístas, mesquinhos e pouco sociais para dar vazão àqueles que consideramos saudáveis - como a boa disposição, a infinita motivação que dou aos meus próximos e o afeto que a eles disponho. 


minha rotina consiste neste movimento de vai e vem eterno em que me reprimo e me libero, às vezes falho, erro e novamente me reprimo, enquanto me arrependo por ter feito algo que não deveria. ao mesmo tempo em que faço um comentário desnecessário, imediatamente fico com uma leve raiva de mim e procuro não repetir o mesmo erro. tal esforço se baseia, sobretudo, na expectativa de me tornar alguém melhor - com todos os sentidos que esse advérbio pode abarcar, platônicos ou não.


seria eu, então, aquele homem selvagem preso atrás das grades que erra constantemente para em seguida ser refreado? ou então sou este ser que se esforça diariamente para controlar uma fera e se tornar um anjo? 


a resposta não é tão simples como "sim, você é todos". não é isso, eu me refiro à essência da minha identidade. se não controlasse meus impulsos, eu seria uma pessoa domada por instintos do ego - sexuais, agressivos, territoriais e vampíricos. caso não me controlasse, seria um homem terrível? por tal, o real Marcel é aquele que controla ou o controlado? e não vou listar meus defeitos pois, apesar de me usar como exemplo, falo do ser humano como um todo.


sou verdadeiro apenas sozinho, então? há um filósofo que diz isso, talvez seja Rosseau, não lembro. apenas solitário, quando não há ninguém para me julgar, quando apenas importa a minha opinião - apenas nesse momento sou Marcel? ou sou Marcel enquanto me podo em meio a amigos, desconhecidos e familiares? ou Marcel é aquele que almejo ser após todo este autocontrole? 


necessito de uma resposta pois preciso saber se caminho na correta direção para me tornar uma pessoa melhor. isto é, quem eu devo me tornar? uma pessoa boa com características distintas das que tenho ou apenas controlar meus defeitos e acentuar minhas qualidades? sou o que já sou ou sou esta imensa distância entre aquilo de que não me orgulho e aquilo que um dia pretendo me tornar?


são muitas perguntas, e sem saber respondê-las eu caminho em uma corda-bamba, incerto de para qual lado devo cair ou se há uma rede a amparar minha queda.

projeções

ah se eu fosse dizer
tudo o que gostaria
e desatasse este nó
que me amarra e me enrola
ao redor do corpo, vai fazendo algo
me acaba pouco a pouco, dá
uma coisa na alma, mal se sabe
o que é, só vai deixando, indo, levando, como fazem
as velhas tias com temores de clínicas
que por falta de conhecimento próprio
perdem partes dos pés e das mãos
e mais dia menos dia
encaram a face soturna da morte
para que após muitas análises
os terapeutas alternativos
coloquem a culpa em tumores malignos
nódulos encravados na garganta, palavras
que há muito deveriam ser ditas
mas ficaram presas e cansaram
(um dia quiseram gritar).

porém tu sabes, por bem ou por mal
no fundo sou manso e retirado
ao mesmo tempo em que não calo
tampouco revelo-me ao mundo
apenas escrevo o poema da expectativa
falando o que poderia dizer, fazer
crer ou absolver
e terminar tudo com reticências
uma charada ou máscara qualquer
jogo de interpretações e hermenêutica
uma bela peça de teatro
na qual os atores são tão previsíveis
enquanto um fala de amor
o outro pensa em dor
e um diretor patético controla o jogo de luzes
e de repente a plateia entende tudo
exceto o personagem
apenas eu um lunático qualquer
em uma comédia dramática
na qual a única pessoa a rir
és tu de mim

(fim).

segunda-feira, 23 de abril de 2012

cariño

como um garoto que foge da mãe mas fica sempre ao redor, a verdade é que gostamos de sofrer um pouco, na tentativa de testar limites e buscar motivos. sempre a nos imaginarmos em situações com um quê de dramáticas, como se em uma tempestade o mundo fizesse mais sentido. incrível aquela época de infância em que adoecíamos e a mãe nos dava colo, fazia um chá e abraçava, dizia "tudo vai melhorar" e tudo acabava por fazer sentido.


dessa maneira, hoje nos colocamos em posições sôfregas à espera de um toque alheio a dizer que tudo vai ficar bem, que você é importante o bastante para que eu cesse minhas atividades rotineiras e mesmíssimas, porém que me dão sentido à vida. eu paro com tudo isso para lhe abraçar e dizer que vais ficar melhor e um dia ficarás bem e conquistarás o mundo, enquanto isso abdico de meu tempo e invisto-o em ti para lhe prestar cariño e motivação. tu que moras só neste quarto frio e gelado, eu me inspiro a te levar um chá até a cama e perguntar: "tudo vai bem?"


"queres meu afeto? quais suas expectativas de futuro? queres mais uma coberta? mais um beijo? te quedes assim que eu dou um abraço forte e caloroso"


no fundo sempre a projetar no outro expectativas de que em ocasiões de maior vulnerabilidade seremos cuidados como crianças a receber o devido cuidado merecido. nós um pouco mais importantes no mundo, necessitados de afeto e carinho. em meio a rotinas ordinárias, nós também a cessarmos com as atividades para adentrarmos em uma realidade na qual alguém nos ama e nos quer bem. 


tu nesta cama de cobertas esfarrapadas
que encara uma janela aberta com o vidro fechado
e pensa que o mundo é tão grande e tão arguto
você impotente e diminuto
deixa tocar o piano das causas imperfeitas
cuja melodia da sinceridade soa tantas vezes
mas no final a sinfonia da definição
uma orquestra sem álibis e constatação
apenas tu o maestro oficial
mas capaz de arranjar a galeria
queimar os telhados do teatro
fazer uma folia genial
e convocar todos para uma bela cantoria 
no centrinho da cidade.

Real



eu deveria ter fumado teu cigarro
e na hora certa
eu mesmo calado
mas as pessoas nunca agem como em livros
jamais ousam correr ao aeroporto
impedir o amado de embarcar no voo
e dizer que te amo intensamente
por favor não entre neste avião
pois o destino é frio e longe


do meu coração. vamos sentar nesta cadeira
e avistar toda a gente estranha.
olha como parecem intransigentes!
jamais olham pra cima
onde logo acima vão estar


bem longe do chão. as pessoas não se imaginam voar
e você há de embarcar no avião
e eu vou verter numa lagoa
e me arrastar numa canoa aberta


como uma história tão deserta e factível
eu até já sei deste final
posto que o roteiro ninguém saiba
uma coisa é ficção
a outra eu vivo


(as pessoas nunca agem como em livros.)
"I don't know how more people haven't got mental health
problems
Thinking is one of the most stressful things I've ever come across
And not being able to articulate  what I want to say drives me crazy
I think I should  read more books
And learn some new words
My sister used to read the dictionary
I'm going to start with that
I'd like to travel
I want to see India and the pyramids
A whale and that race 
with all the bicycles in France
I'm not sure about rivers, they scare me
But I love swimming, 
I'm good at it
And when I swim 
I count the laps
And this helps me relax
When I was younger I saw a house burn down
And I walked past it everyday for the next six years
Derelict, black, chalky and dangerous"

domingo, 15 de abril de 2012

Natação



De todos os mares, o mais profundo é a solidão.
Talvez seja por isso
Que as pessoas insistem em dizer
'Adultos precisam nadar por eles mesmos'
E em meio a toda essa sofreguidão
As águas da vida continuam a passar em nossa frente
E numa correnteza feroz e perigosa
Trazem na maré do cotidiano
Uma indiferença que afoga.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Quem diria



Eu, que jamais gostei do cheiro de cigarro
E sempre odiei voltar da noite defumado
Me quedo com um homem que fuma
Até fazer argolas de fumaça
E encher os pratos de cinzas.


Detestável
À exceção do fato
De me fumar de maneira inebriante
Começa pelos pés, com fome
E na cintura já nem sei meu nome...
Um homem que a despeito do odor predileto
Me mostra cores de um universo 
De um anel de verdadeiro brilhante.


Nunca vivi esta sensação
Como se eu fosse um quadro vazio
Ele me vaza em cores
E de repente sou um Van Gogh ou um Dalí
Cheio de sonhos e impressões do real
Ridículo, ridículo
Vejo-o e me perco em azarações
Ah se... poderia me...
E ele me fuma 
E após tudo terminado
Ele acende o cigarro
E como num filme francês eu lhe falo
"De l'amour, je n'avais que l'ombre
Jusqu'à maintenant"
Rimos como crianças num embalo
O que importa é o presente, ele me diz
Engraçado como tudo faz sentido
O mundo não é uma solidão qualquer...

sábado, 7 de abril de 2012

Versus

Isso de conhecer a mim mesmo
É um profundo desgaste mental
Se sei de mim, já sou outro
E este já é esperto e procura enganar
Toda uma legião pronta pra lutar
Sacrifícios meus em prol de um ser
Um Ele que busco encontrar
Mas se me perco já me posto no chão a chorar
E logo vem o soldado e diz pra recompor-me
'Onde já se viu uma batalha ganha
Com um homem deitado no solo?'
Lá sei eu, animal
Se soubesse não estaria neste estado
Em que luto com um exército por uma identidade
E cada personagem é feliz ou arrasado
Numa distinta personalidade
Todos gritam 'avante!'
Em uníssono marcham ao desfiladeiro
E pulam de uma montanha sem ver
 - No maior perigo de mim mesmo -
Uma queda infinita numa dimensão abstrata
O âmago de um homem confuso e atordoado
Sem projeções de voo
Ou paz entre povos da mesma nação.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Motivo

Primeiro vem a música e todas as substâncias artificiais
(As quais me recuso a ingerir
E me inquieto ao suportar)
E preciso escutar toda essa conversa de barganha
O que eu cedo e o que tu hás de ceder
No final sendo sempre eu a fazer o sacrifício
Claro que eu o submisso e devoto
(Como diz a estúpida Astrologia
Cheia de ironias e conselhos universais)
E consciente desta posição
Me arrefeço...

Como se fosse uma dança qualquer
Vem e segue teu dia comum
E acende com o fogo que não tem
A vela que ilumina quase nada
Olha para mim e finge esquecer
O descaso que você tem em viver

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Objetos e sentidos



Encaro esta foto de duas pernas cruzadas e esboço um sorriso no rosto ao me lembrar do contexto na qual foi tirada. Entretanto, percebo ao mesmo tempo que ela só tem significado devido a esse ato de rememoração. Caso eu morra amanhã, no meu quarto vão encontrar apenas uma imagem banal de duas pernas em preto e branco, talvez apontando para algo fora de quadro (seria uma pessoa? um outro conjunto de pernas?).

Se as coisas do mundo só fazem sentido por causa das experiências passadas, em qual posição posso me colocar? Sou apenas o que vivi? Penso nisso porque sempre descrevemos uma pessoa ao lembramos as situações pelas quais ela passou. Mas não somos também aquilo que queremos e ainda não vivemos? Por exemplo: "esta é minha amiga, que vai ser piloto de avião" ou "eu sou renato e estudo para um dia ser filólogo". Aqui importa muito mais a perspectiva de futuro - algo de que não sabemos - do que o que já foi vivido. Qual a validade do que passou e do que se espera?

Ao verificar tudo isso, me pego pensando se o mesmo não se aplica aos humanos. Quando formos velhos e nossos pais e amigos tiverem morrido, vamos nos sentir um pouco menores e menos relevantes? Ao nos afastarmos de uma pessoa querida - pelos mais diversos motivos -, sempre sentimos um golpe na autoestima, já que nos distanciamos de alguém que, de certa forma, nos conferia certo sentido neste mundo. Cada um que vive comigo diz um pouco de mim, pois construímos juntos uma realidade que ninguém mais viveu.

O desafio de conseguir se erguer e manter sozinho é conquistar um significado próprio independentemente das circunstâncias, desvinculado de memórias alheias. Para isso, vale ter um objetivo a longo prazo, como uma viagem, um emprego ou alguma outra idealização que nos transponha para uma realidade projetada. Antes de tudo, desenvolver uma lembrança ou perspectiva autossuficiente - isto é, algo que apenas eu sei ou que dependa somente de mim. E depois disso, me olhar no espelho e dizer que, sim, este é alguém que pode sair pela porta e encarar o dia como jamais encarou anteriormente. Dessa forma, o mundo não parece tão ameaçador e o fato de saber que um dia o tempo passa não desmerece qualquer segundo de agora.

sábado, 31 de março de 2012

reflexões comprimidas

quem diria que o cordão do sapato
que tantas vezes usei para prender
meus pés ao chão
um dia seria utilizado
para me fazer tombar
e o ar comprimido no espaço de tempo
entre a queda
e o solo
seria seco como um tiro
e todos os meus defeitos soassem muito terríveis
e toda a minha vida passando num segundo
me desculpem aqueles que feri
obrigado àqueles com que ri
os que um dia amei, imploro,
jamais esqueçam do carinho que nutri
cada vez mais chego perto do asfalto
tudo parece tão claro e efêmero
tão diminuto
engraçado como em menos de um segundo
o que é muito vira pouco e o que é pouco, mais ainda
ao mesmo tempo em que se percebe, ora
chegou a hora de enfiar a linha na agulha
e costurar todos os remendos e falhas
fendas por onde o vento passa.

domingo, 25 de março de 2012

Círculo

Dançávamos Kids do MGMT em meio a todas aquelas pessoas que em frívolo julgamento aparentavam ser todas iguais, uma forma maniqueísta de ver caso tomemos a semelhança de suas roupas descoladamente alternativas e os cabelos levemente arrepiados enquanto dançavam, cantavam, estendendo as mãos para cima ao iniciar uma música nova enquanto as luzes chacoalhavam em um frenesi aquático. Nós também chacoalhávamos, não tanto em frenesi porém mais em uma sedução, visto que há uma diferença na dança da sedução do que naquela de apreciação dos sons. Quando se seduz, a cabeça move-se mais lentamente como se uma câmera cinematográfica desse close nos menores detalhes do pescoço, além de geralmente também se olhar para cima como se se invocasse alguma força misteriosa de dentro, talvez algo assim profundo..., a ponto de mexermo-nos lentamente como se não milimetricamente planejássemos cada passo, olhar, toque, palavra no ouvido que, mais do que nunca, sabemos que é dita qualquer bobagem sem o menor sentido senão o de colocarmos a boca no ouvido à espera de que o jogo da luxúria frua como a música que custa a sair do corpo, uma energia flutuante que faz os pés queimarem precisando sair do chão. Duas palavras, contudo, quebraram meu estado de automaticidade. Qualquer coisa como:

- Envelheça comigo - uma mão no meu ombro e outro no meu braço do lado oposto. Pedi que repetisse, não sei se pelo enunciado soar fora de contexto ou se pela vontade de que colocasse a boca perto do pescoço novamente, sei que pedi e ouvi de novo as mesmas palavras. Estranhei. Tive um pouco de receio. Entretanto, controlei o temor e fui extrair o que podia, indaguei: "e como será tua velhice?". Rodeada de pessoas gentis, respondeu, talvez vivendo em uma casa com alguém que amasse, usufruindo daquilo que obtive na vida e nas tentativas de dar a volta em mim mesmo. Foi uma resposta boa, pensei na hora, tomando como inusitado aquele diálogo em meio às mesmices de sempre - pessoas cantando, dançando em uma guerra de egos e se encarando como cadelas no cio loucas para. Amargura um pouco ver recortes dos passos de lobos encarando seus carneiros que almejam com todas as forças se tornarem lobos por mais que nunca o possam, visto que, uma vez carneiro, sempre carneiro, a vivência de lobo é de algo deveras escura e misteriosa, não a ponto de instigar a descobrir, mas sobretudo naquele sentimento que nos move pela fuga.

Moveu-se pela pista e voltou com uma bebida - o álcool que degrada, instalando-nos mais perto daquilo que chamam de época branca cujo principal hábito será reclamar das músicas altas e sem qualidade dos jovens de hoje, jovens que não fazem nada além de frequentar os mesmos locais, ouvir as mesmas músicas e viver as mesmas sensações, acreditando saber da novidade. Bebeu um gole e perguntou-me outra vez, envelhece comigo? E respondi rápido que nem sei se quero amanhecer com você, quem dirá envelhecer

quem dirá saber de minha vida de depois
como um baú cheio de roupas
onde as traças adoram se meter
estragando as roupas de amanhã
e eu sem saber o quer que faça
formando buracos, armando barracos
costurando retalhos com linhas de aquarela
e posando para fotos amarelas
que
tempos depois
vão descansar ao sabor do vento
enquanto eu, na minha vitória
já terei me recolhido há muito tempo...

Habitou-me e eu em seu contrário. No meio da madrugada fui-me embora, pensando em que na semana que vem o mesmo lugar teria uma festa boa, e no outro final de semana também. Aliás, todo o mês estava perfeito naquele lugar, os donos detêm uma boa visão de negócio...

 *


Vários anos se passaram. Nunca mais apreendi qualquer coisa que me fizesse recordar dessa noite, até o dia em que, com meu Amor Maior, trocamos juras de eternidade e prometemos morrer ligados um ao outro, sem nos importarmos com eventuais quedas de cabelo. No fundo, verdadeiramente acreditei no que falava. Contudo, havia um juízo maléfico a me dizer da existência de uma improbabilidade na fruição da promessa. A vida é uma sequência de ilusões, refleti.

22 de junho de 2011.
Tema: velhice
Para o Clube da Escrita

sexta-feira, 23 de março de 2012

mediações

ou reflexões sobre a dualidade do ser.


um quadro na parede 
acostumou as vistas da família
as cores que num dia chamavam
no outro se tornaram desgastadas
de tanta indiferença ele mudou
da moldura o quadro vazou
o lago que havia parado 
de calado virou cachoeira
escaldou no piso da sala
uma pintura revoltada
que de tanta mesmice enfureceu
e de tanto derreter
respingou
e de repente encaro um jovem magro de olhos claros
com olhar tão curioso
e tão pesado
que me olha como quem indaga
me intimida e me aproxima
me toca como homem algum jamais tocou
no plexo daquilo do abstrato
o que é fato e o que não é
não saberei
apesar de calado
o jovem se cansa
vai embora
e enfim eu me aquieto logo agora
afora uma pintura congelada.

quarta-feira, 21 de março de 2012

bonecos

então a vida se resume a projeções mal feitas. seres andando de olhos fechados crendo estar na calçada tomando unicamente como base as visões da imaginação. mas por que isso, sabe? por que esta necessidade de sair do corpo e utilizar o outro como objeto a dar forma a expectativas, sonhos e frustrações em uma massa corpórea de vida própria que insiste em não obedecer aos nossos comandos. posto isso, falo na esperança de ver o outro reagindo às minhas palavras enquanto me sinto de alguma forma mais calmo por ver que enfim alguém percebe minha existência patética e efêmera. ridículo ridículo, o diálogo prossegue visto que o outro ouve tudo com atenção somente para que possa enfim falar e discorrer sobre seus dramas existenciais em uma verborragia dramática.

raiva desse egocentrismo que nos acolhe em uma interação com objetivos claros de utilizar o interlocutor como minha plateia - bajulando-me, adorando-me e acariciando meu ego que é frágil por motivos escusos que me recuso a encarar ou domar. dificilmente um elogio dado sem o peso de um bumerangue que voa por um campo para voltar ao mesmo lugar de onde saiu.

quem sabe sejamos sinceros? eu digo que quero isso e isso de você, você responde que deseja de mim todos os pores-do-sol que existem para que enfim eu admita que de ti espero nada menos do que uma felicidade arrebatadora e dilacerante e que por favor não me uses como se eu fosse um simples boneco transtornado, se escrevo sem vírgulas e maiúsculas é porque o pensamento não os tem, você já viu um pensamento pontuado? não nunca viu porque essas letras visuais apenas tentam prender em alguns símbolos as lembranças de sensações abstratas que infestam minha cabeça como aquelas abelhas dos desenhos animados perseguem animais caracterizados com sentimentos humanos feitos para criarmos empatia.

sensação esquizofrênica de que todos querem nos manipular. e não me refiro à publicidade ou aos jornais, mas sobretudo às pessoas com suas vulnerabilidades psicológicas que constato na minha visão ansiosa e incapaz de arranjar uma solução. por consequência, me porto com aquele olhar de assombramento que me faz distanciar de situações, mas, ao mesmo tempo, não me ajuda a lidar com fatos e atos de deslizes, se ainda me pego tentando manipular os outros da mesma forma como noto os outros tentando me usar...

faz falta entender de teatro. ou de gente.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Considerações (4)

assim como o fogo é vida
a vida é fogo e de tão linda
arde a mão daquele que lida
mas de tão calor este tal jogo
é um círculo que gira
e gira como pode
queima sem saber que me fode

sinal

tudo é prova de deus quando queremos.
sinal de felicidade e de amor
e dor e impulso para frente.
todas as coisas assinalam outras coisas que não outras
aquelas que queremos.
isso não é poema
é descrença.
se tudo é sinal, todas as horas marcam uma doença.
mas não temos relógio para tanta marcação.
não temos ponteiros.
não temos tanto tempo.


(pressa de viver
e ser)

quarta-feira, 7 de março de 2012

força

hoje fui tomado por uma espécie de euforia
uma alegria como se por dentro
um furacão crescesse com energia
daquela vontade de recusar o não
e abri os braços a uma nova fase
mais uma vez as represas se rompendo
estado de calamidade
dispersão.

sexta-feira, 2 de março de 2012

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Qual sua estratégia para prender a atenção do leitor?
Ismael Caneppele: Nenhuma. Não faço a menor questão de prender ninguém. Prefiro pensar em liberdade de identificação. Quando escrevo estou nu e isso sempre acaba interessando alguém.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

hoje é meu aniversário

fevereiro é um mês de criações.


o tempo anda deixando suas marcas
e rindo quase deserda
assim como fere as pedras
o tempo molda marcas em mim
nem parece que o ano que passou
foi tão dramático
eu, que prezo pela intensidade, não pude reclamar
todas as opções de loucura foram contempladas
hoje faço 19 e observo os poros na face
cada vez mais se modelando
acho bonito o "ser mais velho"
dentre todas as riquezas
prefiro a sabedoria
ainda mais se traz alegria 
com um gostinho de "quero mais"
apesar de janeiro ser do cão
hoje encaro a vida e dou-lhe a mão, digo
"como vai, querida, como estás
se me queres apunhalar
será preciso se esforçar"
após todas as idas e vindas
sinto-me mais forte. astuto.
e posto que mantenha uma inocência de alegria
o amanhecer sempre me traz esperança 
- após a tempestade vem a bonança
e um pouco de melancolia.


isso de ser gente me encanta e me anima.
gente que me cansa e me fascina.


pessoas são nuvens carregadas de chuva
prontas pra explodir.


mas a chuva passa e o céu fica limpo
lembra o infinito.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

fogo

assim como o fogo destrói, ao mesmo tempo reconstrói, visto que para remodelar-se é preciso encarar cada pequeno pedaço que sobra e dizer: "sou o que passou e o que mantive, lido com aquilo que tenho e ainda desejo o que jamais tive".


como uma vela de sete dias
gota a gota feneci
alguns fizeram orações
outros fingiram não ver
(houve aqueles que secretamente
incitavam maldade na chama)
passada uma semana
continuei a queimar
tão incrível como os mortos
mantêm poder sobre os vivos
sem jamais pensar nos risos
de outros carnavais
o que passou, passou
o que ficou não volta mais
mas hoje a cera é mais forte
e na brisa da nova sorte
manda alô em queridos postais!
a vela que arde num dia
no outro queima penas de pombais
queriam tanto alçar seu voo
mas de tanta fé e enjoo
tombaram na beira do cais
e o fogo que hoje ilumina
imagina, meu senhor


chama vozes de alegria e inicia histórias de amor.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

italiano

hoje vi um casal de idosos conversando em italiano. falavam muito alto e gesticulavam bastante. pareciam estar brigando. contudo, após alguns momentos, a velha pareceu se fazer compreender e estendeu a mão ao marido. saíram cúmplices de uma eternidade.



eu gostaria de falar italiano
todos os gestos desse povo são expressivos
as mãos sempre ao alto 
como se fosse um assalto
em que cada conversa é uma dança
e cada dançarino me seduz
como se dotado de uma luz
e eu uma mosca qualquer
a voar sem saber 
onde a lua fica
uma fase que arrisca
a fama de um homem inglório
que após versos descabidos
sente que a poesia o desnuda
(por que fazer poesia se a poesia não fica na rua?)

eu gostaria de falar italiano
e saber sorrir, gerar, me expressar
de uma maneira que não fosse patética
falo bonjour e il n'y a pas de quoi
se me ponho de ridículo, tu vois
tudo uma maneira de me expandir e chorar
em direção aos quatro cantos do universo
(seria um deslize do meu ego?)
o que fazer, o que montar
hoje vou desenhar o meu futuro
como se fosse o dia de arte
arquitetando planos, fatos, rimados
uma ânsia de crescimento e ascensão
imersão em uma redoma de vidro
de calmaria, euforia e depressão.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Recordos (2)

Por um acaso, encontrei um texto meu escrito no ano passado, após um dia de cão. De alguma forma, achei relacionado ao poeminha do post anterior e decidi publicá-lo, também para que você pense aquilo que pensei. Tirando mudanças para evitar repetições de palavras, segue na íntegra. No começo falo de política. No fim, falo de pessoas. Você pode ler tudo - ou nada. You have options.

"Uma comunidade é constituída por uma gama de indivíduos. Para tornar-se um ser social, é preciso interagir em um grupo, trocando informações, mensagens e sentimentos. Neste processo de inclusão, é preciso ser um indivíduo - ou seja, individualizar-se, visto que a capacidade de ser diferente em relação ao outro é o que assegura nossas fronteiras, no momento em que sei que meu corpo acaba quando vejo que minha pele é distinta do papel que toco agora. A cor branca do bloco não é a mesma cor dos meus dedos, o que me faz concluir que ambos não são a mesma coisa. Resumindo, tenho a necessidade de me assegurar da diferença entre as coisas do mundo para saber aquilo que sou e o que não sou; quais os meus limites e quais as minhas possibilidades que me asseguram de evitar um risco de morte. Isso vale para entender meu corpo, mas também para compreender minha personalidade a fim de manejar meu ego.


Em nossa sociedade, o consumo é praticado como meio de adquirir um signo de diferenciação. Ao obter um produto, agrego a mim o valor embutido. 


O paradoxo é que a busca da esquerda política é a igualdade, por meio de tentativas de incluir o excluído dentro da comunidade. Mas como promover a igualdade se a busca do ser humano é a diferença? Além disso, a cidadania é hoje efetivada pela capacidade de interagir no mercado, tendo em minhas mãos representações concretas de um status econômico que me identifiquem em um meio.


A esquerda inclui uma pessoa em um grupo. Uma vez dentro, o indivíduo tentará o mais rápido possível diferenciar-se dos outros, também na tentativa de impor sua importância e relevância em meio a uma aglomeração que muitas vezes parece uniforme e vazia. Os processos de diferenciação não são benéficos para quem não tem tantas armas de distinção - no caso, pessoas de pouca renda que não podem comprar roupas caras e carros de luxo ou consumir alta cultura. Dentro de uma comunidade, o indivíduo tentará provar seu valor, empurrando os semelhantes para todos os lados (mais provavelmente um degrau abaixo na pirâmide social), a fim de demarcar o território.


O que é viver em sociedade? Uma batalha em que mal sabemos de que lado estamos? Como se fôssemos todos lobos. Carnívoros. Andando em matilhas a fim de demonstrar poder em frente aos mais fracos. Quem é o chefe? Quem obedece o faz por gosto ou por obrigação? Eu, Marcel, me vejo perdido em uma encruzilhada. Não quero obedecer, mas também não quero mandar. Procuro não excluir, mas excluo. Tenho preconceitos, sinto inveja, raiva e ciúme. Tento entender meus sentimentos e posturas de mundo, na expectativa de tentar manejá-los, mas vejo que meu ego muitas vezes é forte o bastante para me impedir de tocá-lo. Quem sou eu neste mundo? O que posso fazer para tentar fazer a diferença. Por que quero fazer a diferença? É uma necessidade de tentar deixar marcas após minha morte? Que se lembrem de mim? Isso também é uma forma de me diferenciar dos outros... O que me faz pensar que volto ao ponto de partida. Anulo-me ou libero-me? 


O que é bondade e maldade? E o amor? Se se diz que, em um relacionamento, um ama mais do que o outro, é porque o outro é incapaz de amar mais? Uma pessoa pode amar mais do que a outra? Tem mais sentimento para prover ou simplesmente não se solta o bastante? Se há pessoas que nunca na vida odeiam alguém, há quem jamais ame? E me refiro aos relacionamentos amorosos, evidentemente, porque amor para pai e mãe é indiscutível. Amar é uma questão de possibilidade ou de oportunidade? 


(Que o tempo me diga.)"

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

A lua e o lobo

há um ditado em francês
la nuit porte conseil
algo como
a noite traz conselhos
pois após termos dormido
as dores não doem como doíam 
na noite anterior

a noite porta conselhos
e ditados cheios de graça
como se bela fosse de raça
com uma lua cheia de sabedoria
que de tanto saber engordou
e de tanta solidão e melancolia
acordou de sonhos terríveis
de fogo. de primeira fase.

e um jovem lobo acorda em todas as noites
e olha para a cascata do conhecer
se indaga entre uivos e recaídas
a validade do erro e do acerto
o acidente de viagem e o naufrágio.
o rosto humano. 

de repente ela emagrece
o lobo uiva e a bola se aquece
a lua toda se enfurece
como chuva de espinhos de gelo
e os homens que ficam lá embaixo
escondem-se nos braços dos outros 
a fim de proteger-se do corte. da Morte.
só que a lua faz nada e aguarda em seu tempo
ciente como velha anciã
de que a sabedoria lhe desvenda muitas mentiras
porém o maior enigma de suas fases
não é a forma como brilha no escuro
mas a maneira como reflete na Terra.

(nos olhos de lobos em guerra...)


*
esse poeminha foi construído de forma a fazer uma ligação entre dois personagens: a Lua e o Lobo. não fiz referência ao sono e aos sonhos, que de alguma forma trazem respostas aos nossos dilemas, mas deleguei tal missão à noite e a sua maior arma - a Lua. a noite representa o infinito, a impossibilidade de encontrar um limite, ao mesmo tempo em que, na sua ausência de barreiras, pode agregar as mais brilhantes estrelas quanto os mais perigosos asteroides. isto é, ao mesmo tempo em que o não saber - o Futuro - pode representar possibilidade de felicidade e segurança, pode também traz tristezas e arrependimentos, visto que nada é certo, nada é definido (nada tem um limite).

a Lua representa a passagem do tempo (por meio da alusão às fases por que passa). vivido em quantidade e intensidade, o tempo implica acumulação de sabedoria e de vivência para lidar com as angústias diárias. o Lobo, enquanto encara o satélite se imaginando com experiências para solucionar as questões que lhe atormentam durante a noite, também se resigna com sua pequenez e ignorância. ele então se projeta na Lua e deseja ter a grandeza dela para fazer com que os homens na Terra sofram da forma como ele sofre. por fim, o satélite natural é sábio: não atende ao pedido do Lobo e apenas observa o mundo dos lobos (ou homens?), com a maturidade que lhe é incutida. 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Hermenêutica que desgraça

assim, eu digo que sim. você, não? para que servem as palavras? eu não sou o que escrevo e temo tanto... tanto que me tomem por um personagem caricato... como se fosse um ser extremamente infeliz e inglório... angustiado até sim, talvez, mas não porque escrevo, e sim porque o sou independentemente das circunstâncias... às vezes me causa calafrios o olhar de quem crê saber o que se passa em minha cabeça apenas porque fiz uns versos mal-feitos... e às vezes me dá vontade de não publicar nada, deixar tudo bem quietinho... só para não me lançarem olhares de quem diz, pobre coitado, está em vias de depressão... basta de conjecturas, bem sei que se escrevo, alguém lê, então ponho-me a risco de interpretações... mas não me tome pelo que não sou... e também não me tome pelo que sou... assim como me exponho ao escrever, também o faço para me esconder... visto que não sou bobo e conheço os poderes dos gritos e silêncios, do dito e do não dito... e de todas as interpretações, a pior é acreditar que me conheces sem ao menos me pagar uma fatia de torta...


Já basta de inconfissões
E frustrações de distintas personalidades
Hoje vou falar de cousa que me fere
O colorido abstrato que se insere 
Entre o certo e o errado 
A desnecessária atenção aos números depois da vírgula
E por que raios 
Queremos dissecar
Todas aquelas rimas bobas e estapafúrdias
Aquele sentimento de sofreguidão 
E angústia


Raiva que dilacera
E crê em Deus como algo que se espera...
Hoje cruzei o corredor da faculdade
E não havia ninguém para ouvir o som dos meus passos...
Uma distinta elementação gritando
Eco, eco, eco
Como a ressoar meus temores internos
O que me lembra daqueles homens de muy prestígio
Que após dores de litígio


Escrevem distintos poemas 
Com requintes de um homem que sabe...

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

After a class or two

(depois de intensa imersão em Sylvia Plath
decidi me arriscar no inglês
e você me perdoe qualquer falta
pois que até no português
não dou alta)


I still see you eyes glittering
Which always remembers me
Two clouds breaking in a storm
And their impatience sounds like a thunder
An amplitude shaking my head such as an earthquake
But of course without a headache
You could take my face to the sea, because
From all of the masks, it's you who most cover me
And I still don't get why my arms and legs
With their blood and tender flesh 
Beg for more and more and more
An annoying child who always eats candies and nuggets
And after years of intense pain and diarrhea
Finally give up 
And go to bed at seven. 

For heaven.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

As pessoas dos livros

Fernanda Young não é das melhores escritoras. Dá para ver que o editor fez uma boa limpa no texto - e mesmo assim não conseguiu deixar tudo 100%. Contudo, não dá para negar que ela é muito inteligente, já que basta reter a atenção nas pequenas reflexões propostas nas frases curtas e irônicas. Ela faz rir. Faz bem. Este poeminha não é irônico, mas foi estruturado de uma forma como ficam arranjos de mesa na ceia de Natal. Bonitos como estão, na sua própria simplicidade e presença.


Um redemoinhos de erros
Levantou os móveis do amor
Quebrou o jarro, molhou
O tapete com a água
Das flores
Fez-se um balé de 
Poeira e tules
Estragou o jardim
Estraçalhou a cristaleira
E jogou no chão, entre
Cacos, os dois corações
Equivocados.


p. 101