sábado, 19 de junho de 2010

Boneco de pano Parte 1 e 2

Quem acompanha essa Polaroide há mais tempo, lembra de que uma vez eu postei um texto sobre boneco-de-pano. Pois bem, fiz outro texto relacionado. Vou repostar o primeiro, para quem não leu.



Primeira Parte
Eu tenho pés-de-pano ao levantar da nossa cama e cuidar para que meus passos no escuro não te tirem do mundo que estás descobrindo, um mundo que eu não conheço e nunca conhecerei, um mundo que só tu sabes a entrada e às vezes nem sabes a saída. E assim são meus pés quando discutimos e tu olhas para mim com um olhar que tenta ser intimidador: cuido para não pisar em algumas das tuas feridas que não estão bem cicatrizadas. Meus pés são de pano ao cuidar o que falar quando estás de mau-humor, e também ao sussurrar palavras bobas no teu ouvido (que sei que te seduzem e te fazem derreter). Tenho mãos-de-pano ao escrever poesia no espelho do banheiro e ao tocar teu corpo como se fosse páginas do meu livro favorito. E assim se fazem as minhas mãos enquanto arrumo nossa cama e vejo teus bilhetes que dizem “essa cama me traz melhores lembranças quando desarrumada”. Rio com minha boca de pano. Meu corpo é de pano quando deixo que me toques e me amasses como se eu fosse um boneco; e também sou boneco quando deixo que faças tudo o que queres de mim: e ao costurar um sorriso no meu rosto ao te avistar: e ao te entreter quando na tv só passa propaganda.

Para ti, sou todo de pano, exceto este coração que hoje sente algo tão quente que retalhos de tecido barato não suportam - e meu corpo de pano entra em chamas com tua presença ao meu corpo inflamável.
Sou de pano de manhã até de noite,
e ao entardecer,
amassado por alguém
que esquece que sou feito de retalhos de outras vidas
 - retalhos de outras brincadeiras.

(Sou de pano para ti
e mais ninguém.)

Segunda parte
Mas eu sou de pano e só isso não é motivo para mutilar-me vez que outra, ainda com constância. Nos meus braços de pano, cultivo cicatrizes de costuras e remendos, passagens de brincadeiras que a mim não foram bem. Para cobri-las, são os remendos mas diversos que adoto em meu corpo. Remendos xadrez, preto-e-branco: às vezes um desenho. Saí do banho e fui ao espelho: e vi que em meu corpo são remendos que fazem minha estética: e de mim somente sobra quase nada: pouco tecido vivo e virgem. Toquei meu coração e senti novamente as agulhadas das vezes em que precisei morder meus lábios (de pano já gastados) para esquecer a dor que era remendar o coração já machucado. Chorei com meus olhos de pano pouco usado.

Em meu corpo é que se escondem
Meus segredos intocáveis.
Mas quase tudo é tocável
Num pano já usado.

E meu valor de mercado quase cai
Nos meus remendos
Lembranças de agulhas que feriram
(Que me sangraram)
Feridas que enfim
Me podaram.

4 comentários:

Vitória Kubitz disse...

Os dois textos são incrivelmente lindos.
Você tem o dom de escrever.
:*

Ana Luisa Pacheco disse...

Ao mesmo tempo que as agulhas te fazem sangrar te fazer mudar.


Eu gosto na primeira parte seu jeito, "muleque do sul", usando pronomes diferentes dos meus.
Acho bonito esse jeito de escrever.

Nat disse...

Me apaixonei por esse texto na primeira vez que li, um dos primeiros que li por aqui... Me apaixonei outra vez agora.

Muito lindo, Marcel... Parabéns. =)

Hosana Lemos disse...

conseguiu me deixar calada...