segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

ansiedade

A minha primeira lembrança de dissociação foi aos 5 anos. Era noite e meu pai ameaçara me bater porque eu queria limpar o quarto em vez de dormir, ao que fui para a cama a contragosto. Uma vez deitado, senti uma força sair do peito e me puxar para baixo, o que me fez observar o próprio corpo do teto. Como era criança, fiquei assustado e falei para a minha mãe que tinha cólicas (talvez porque eu a ouvia reclamar das dores no período menstrual). Ela falou para eu sentar no vaso e esperar o cocô descer. Não saiu nada, mas fiquei tempo o bastante sentado a ponto de ficar com sono e voltar para a cama e dormir.

Talvez esse tenha sido um dos primeiros sinais de que eu me tornaria uma pessoa ansiosa. Meu pai dizia que homens não mostravam suas emoções, então aprendi que deveria guardar para dentro qualquer sentimento. Para certos efeitos, consegui me libertar e me tornei uma pessoa acidamente sincera e transparente. Para outros, acumulo toda a ansiedade dentro de mim a ponto de ela crescer e se transformar em pensamentos dramáticos e prejudiciais como uma erva-daninha (por que ninguém se preocupa com o fato de que a qualquer momento TUDO pode dar errado na vida???).

Felizmente, não tenho TOC - ao contrário de um parente que sempre cancela o aquecimento do micro-ondas quando faltam 10 segundos para acabar. No entanto, não consigo evitar de pensar que tenho 21 anos e não publiquei nenhum livro, sendo que nessa idade o Caio Fernando Abreu já estava no auge da escrita. E o Rimbaud, que tinha 17 e se tornou um dos maiores poetas da literatura francesa?? O que eu fiz de bom aos 17, além de passar na universidade? Em que mundo paralelo isso pode contribuir para a sociedade? Talvez eu devesse voltar para a cama. Ou limpar o meu quarto.

Leio Bauman compulsivamente e fico com pena da minha geração. Somos ambiciosos a ponto de desejarmos praticar o bem, mas imobilizados por conta das atualizações da timeline do Facebook. Como ser produtivo em um contexto em que posso saber de qualquer coisa que acontece, graças às redes sociais e aos portais de noticia? De que forma vou escrever um texto profundo e relevante se o Buzzfeed acaba de postar um link com mais fotos de cachorros fofos? Consciente disso, tento não pensar no assunto e passo café para mim, para em seguida me culpar (diariamente) por colocar duas colheres de açúcar. Minha mãe não aguenta mais e por isso comprou açúcar orgânico, ao que agradeço e digo que a amo.

*

Toda a vez em que passo a pé pela Assembleia Legislativa, uma mendiga velha me olha e pede dinheiro para comer. Eu a encaro (nunca ignoro, porque acho horrível fazer alguém sentir que não existe) e peço desculpas por não a ajudar dessa vez. Um dia, ao voltar do trabalho, vou ao supermercado e compro uma caixa de Bis para comer enquanto leio um livro chatíssimo para o TCC. Na volta, encontro novamente a velha, que me pede comida. Digo que só tenha uma caixa de Bis, ao que ela responde: "Tudo bem, um chocolate faz bem para adoçar a vida".

Entrego a caixa e saio andando, pasmo. Quisera eu ter essa positividade. No meio de tanta ansiedade, tendo a me focar nos pontos negativos da vida e passo a crer que meus dias são sempre ruins, ou que ao menos sempre poderiam ser melhores. A matéria que escrevi não tinha uma abertura boa, não andei de bicicleta como eu planejara, não almocei com o meu amigo, não fui romântico com meu namorado como poderia ter sido. E assim os dias passam a contragosto, como se eu estivesse sempre longe de quem aspiro a ser.

Chego à conclusão de que todo ambicioso tem um pouco de baixa autoestima, porque não se contenta com aquilo que possui e precisa de algo a mais para ficar em paz. Talvez por isso pessoas acomodadas pareçam felizes. Se estivessem incomodadas, fariam algo de diferente. E quem pode julga-las? Uma vida sem ansiedade é uma vida mais agradável. Um dia sem se preocupar se fez a escolha certa no trabalho, na relação, no direcionamento da vida. Certezas que duram mais de 24 horas. Ações sem uma autocritica constante e destrutiva.

Minha psicóloga disse que uma saída para a ansiedade é se esforçar para manter o foco no presente. Dar leves tapas na cara, fazer sexo, yoga, não remoer uma escolha depois de tê-la feito. Ações práticas que tragam a atenção para o que está acontecendo. Cumpro as tarefas à risca. Mas às vezes ainda me pego observando meu corpo do teto. Nessas horas, repito para mim mesmo: "Está tudo do jeito que tinha que ser, da melhor forma possível...". Coloco um sorriso no rosto e me ponho menos crítico. No fim das contas, somos as únicas pessoas com as quais precisaremos conviver 24 horas por dia pelo resto da vida. Talvez valha o esforço tentarmos ser um pouco mais agradáveis com nós mesmos. Para fazer a existência terrena mais calma.