domingo, 8 de fevereiro de 2015

melancolia

Nos últimos tempos é um pouco difícil falar com pessoas da minha idade sobre algum assunto que não tenha a ver com ambição. Os amigos mais próximos estão se formando na faculdade, alguns já estão empregados, outros fazem planos de morar fora, outros não têm a menor ideia do que fazer. Parecemos adolescentes de 14 anos e meio, quando somos as ambições que criamos para o futuro próximo. 

Eu estava na festa de 28 dias para a formatura da minha turma com um nível de álcool no sangue bem menor do que eu desejava, talvez por conta da massa penne que meu namorado cozinhara algumas horas antes. A cada dois passos que eu dava na festa, encontrava algum conhecido da faculdade a quem abraçava e falava sobre amenidades, formatura, projetos de vida etc. Como se estivessem em uníssono, todos estavam excitados, ansiosos e, basicamente, apavorados com o que fariam a partir do momento em que pegassem o diploma e tivessem que enfrentar o mundo das expectativas criadas para uma pessoa já formada. 

Dançamos como amigos idosos fazem em bailes da saudade, com um pouco de excitação, mas sem aquela energia dos velhos tempos. O lugar estava lotado o bastante para as pessoas pisarem nos pés das outras sem pedir desculpas. As músicas iam de Novos Baianos a Queen, o que me deixava sem saber como dançar e meu namorado entediado, trocando mensagens pelo iPhone com uma amiga. Eram 3h quando fui embora com uma leva de amigos. 

No dia seguinte, me ergui da cama com pensamentos amargos não típicos de um sábado de manhã, quando em geral estou alegre e bem-disposto. Ainda de pijama, encarei a pilha de louça suja da massa penne, fiquei desmotivado e voltei para a sala. Sentei no sofá e comecei a ler 1Q84 entre uma mordida e outra de uma maçã bem doce. Depois de duas páginas, larguei o Kindle de lado e comecei a repensar o que havia acontecido na noite anterior. Havia algo que não estava certo, como uma peça de quebra-cabeças não encaixada no lugar correto. Faz cerca de dois anos que minha turma da faculdade quase não se encontra. Saio com três ou quatro pessoas, em geral em almoços, com hora certa de inicio e fim. Quanto à minha turma de amigos do colégio, as coisas também mudaram: minha melhor amiga se mudou para Barcelona com o namorado, meu melhor amigo está na Finlândia, outra mora no interior para cursar Medicina. Restaram poucas pessoas, mas não o suficiente para seguirmos o hábito de ir em bares às sextas-feiras, reunir-se aos domingos para tomar banho de piscina e fazer nada em lugar algum.

Esperei ansiosamente meu namorado se revirar na cama, ao que fui correndo para não deixá-lo voltar a dormir. Enquanto abraçava um travesseiro de astronauta, contei tudo o que se passava na minha cabeça. Com a maturidade de quem tem quase 30 anos, uma paciência de quem está apaixonado e uma voz de sono, ele explicou que o afastamento é absolutamente normal e previsível. Uma vez que não há mais a necessidade de convivência por conta das aulas, a faculdade não é um motivo para nos unir. Apenas continuam a se ver aqueles cujo vinculo ultrapassa a obrigação de convivência diária. Quanto aos amigos do colégio, cada um constrói a sua trajetória, o que às vezes implica ausência física e aumento do gap entre os encontros. Assim como a vida se reconfigura, o mesmo ocorre com nossas relações. 

Me senti como o adolescente de 16 anos que era ao sair do colégio - ansioso para entrar na faculdade, melancólico por saber que se encerrava um período do qual, mais tarde, eu sentiria falta. Eu sabia, à época, que deixaria de ver meus colegas do Ensino Médio, exceto aqueles com quem ainda saio hoje. O caso é que sofria com o luto futuro, com a consciência de que um ciclo se encerrava e que parte de mim ficaria para trás, acessível a partir dali apenas por lembranças e fotografias - praticamente o que acontece hoje. 

Esse sentimento me parece típico de encerramento de uma fase. Quer dizer, quando convivemos com um grupo de pessoas, parte de nós fica com elas nesta maluca experiência que é o inconsciente coletivo. Quando nos afastamos, também ficamos mais distantes de parte de nós mesmos. E assim fica para trás o eu universitário que ia empolgado para a faculdade, que saía para festas com os colegas, que tomava banho de piscina com os amigos, que tinha os finais de semana livres para fazer absolutamente nada. Um eu que vira história e dá lugar a uma nova identidade. 

Talvez o medo meu e dos meus colegas seja este: como se reinventar? Quem vou ser agora? São questões às quais é impossível responder no momento e cujas respostas só aparecem depois, quando a equação já foi solucionada e olhamos para trás, com um pouco de melancolia e saudade.