segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Saída de Emergência


(É apenas uma escada
mas que leva a

dois destinos.)

 Algumas palavras no ouvido, e de repente ela já está descendo as escadas e corre, como corre, nós estamos no nono andar e ela corre e tem bolsa de couro sintético e usa rasteirinha, talvez já estivesse pronta para a ação, talvez não - é possível que o inconsciente já soubesse que teria que fugir do namorado, o que a faz correr ainda mais; o homem vai atrás, vadia, diz, vem aqui, vadia, mas ela não para de correr, o homem não para de correr, e as escadas não parecem acabar; o barulho de elevador atordoa, ai meu deus, ele vem de elevador; mas não, ele não vem de elevador porque sempre demora e não é agora que pode demorar; o homem não pensa, não articula, não trama, só corre atrás, parece que por instinto, ele socou ela, também por instinto, mas agora é uma força maior que o faz correr atrás; e ela corre, como corre, não é força maior que a move, são todas as forças - menores médias e maiores -, porque sua mãe dizia, você é burra por continuar com ele, mas a gente não escolhe quem ama - e essas escadas que não terminam nunca -, eu acho que sempre me atraíram os homens rebeldes - sem causa por causa criando causa -, talvez eu seja uma causa sem causa; o homem tem pernas fortes e compridas, até que ganha uma vantagem, mas ainda assim está dois andares atrás, efeito do vaso quebrado nas costas; (puta, quem pensa que é, uma vadiazinha, isso sim, querendo me peitar, eu que te sustento!) (eu aqui, louca pra te dar e você sai comendo as outras, ordinário!) - tapa na cara - (covarde! pois bem feito você ser broxa) - soco - (puta); os vizinhos escutaram a briga toda mas não interviram, diz que o homem tem revólver; caem lágrimas salgadas no piso gelado das escadarias frias, a mulher não sabe o que fazer só tem que correr: somam-se gotas férreas de sangue quente às lágrimas há pouco recentes; por quê, por quê eu continuei com ele, por quê eu fui me apaixonar por ele, será que a vida é assim? e não tem solução, e as pessoas se apaixonam de jeitos inexplicáveis: mulheres amam homens que as torturam, homens que amam mulheres que os configuram , homens que amam homens que não os completam, mulheres que amam mulheres que mal interpretam e ainda há os travestis; a mulher chega dá o último pulo no último degrau do primeiro andar, socorro! ela grita, mas o porteiro está cagando; não sabe abrir o portão, sabe que tinha que apertar um botão na escrivaninha do porteiro, mas rápido! pois o homem está chegando; ele agora já está no segundo andar e pula dois degraus de cada vez, só sabe que tem de parar a mulher, a mulher que está ali, na escrivaninha do porteiro; não acho o botão, não acho o botão, aquele homem vai me matar, ela tem certeza, cadê o puto que tá cagando?, já é de madrugada e ninguém vai passar na rua, eu vou morrer, ela pensa; assiste o homem dar o último pulo no último degrau do primeiro andar, esboçar um sorriso que ela tem certeza ser irônico: o mesmo sorriso que ela teme ver - sente fantasmas virem por perto e dizerem "corre"/uma vontade de vomitar tonteia tudo; o homem sente dedos de fantasmas levantarem levemente as extremidades de seus lábios, e diz:

-Suzanah, vem aqui, eu só quero conversar.

4 comentários:

Marcel Hartmann disse...

Não sei o motivo, sei que saiu um texto sem ponto.

Juliana disse...

no fundo, a nossa mãe sempre tem razão. mas fazer o quê?

Natália Paes disse...

Para ler num só fôlego...

~ disse...

é (: