sábado, 13 de fevereiro de 2010

Sangue de Jesus

Hoje tenho pais, sim, tenho pais que me amam e me acolhem e me recebem, hoje tenho pais. Quem olha não desconfia que uma vez não tive, em alguma era eu não tive pais e fiquei à mercê do vento - talvez de Deus; se eu pudesse colocar "de Jesus" no meu nome seria mais fácil. Não se sabe e não se entende, por algum tempo fui órfão e vivi numa cama de hospital esperando: esperando o dia em que viriam me pegar. Não vieram. Não me importei não os odiei não senti sua falta, era apenas um bebê (um bebê que não sentia nada além das coisas de bebê; os bebês que sentem coisas que os médicos apenas tentam - desvendar para publicar em revistas científicas dizendo: - os bebês acham que ao chorar a luz se acende, e não por causa dos pais. Os bebês entendem coisas que os adultos não entendem, eu fui um bebê e não sei o que entendia, sei que alguma coisa abstraía porque agora estou aqui e me agradam hospitais).

Hoje ando por aí comungo com os ventos
vejo prédios que impõem presença aos outros
outros que não veem os prédios
eu bem vejo os prédios
saio sem meu guardachuva e não me importo de molhar-me
piso em folhas que outrora viviam
(e me sinto como daqueles assassinos incontroláveis)
apesar de morta agora torturada
uma inofensiva folha
folha morta que antes vivia n'árvore
árvore que criava a folha de maneira
que não fui criado.

"Pai é quem cria". E quem não cria é o quê? Pouco me importam as nomenclaturas, não sei delas e elas não sabem de mim; vida boba minha que parece ser cheia de "nãos". Quem sabe de meus pais senão deus?: deus ou qualquer existência cósmica que me faz dormir. Uma conhecida minha, adotada também, disse que um dia vai conhecer os pais biológicos - quer saber quem foi que a abandonou. Também quero. Mas se não encontrar também não morro pois vivo nesse laborioso trabalho de buscar algo que não sei - busca de pais/busca de sentido/busca da vida? E se minha mãe era prostituta e meu pai drogado, também tenho sangue de china e viciado? E se forem famosos e talvez eu seja fruto de um caso talvez proibido; mais prático ainda: e se meus pais eram pessoas normais daquelas que não acrescentam nada ao mundo, daquelas que são só mais um na corrente, serei eu também qualquer vivente?

Hoje saio por aí vou ao cinema
vejo dramas e saio pensando
 se minha vida poderia ter sido
 o filme que acabei de ver
em cada filme vejo
 uma vida minha que poderia ter sido
mas não foi.

6 comentários:

Marcel Hartmann disse...

Ficção.

Larissa disse...

Nossa, profundo, verdadeiro, intenso seu texto... adorei o ponto de vista, a criticidade...
Parabéns!!
E concordo com o fato de não prcisar fazer da vida uma busca por essas pessoas que, por algum motivo, abandonou um filho.

;*

Brenda Matos disse...

Tocou fundo, Marcel.

Vanessa Souza Moraes disse...

O cinema pode ser mais real que a própria realidade.

Felicidade Clandestina. disse...

ficção pura e quase real...

Ou seria 'puramente' real?

LINDO.

*-*

Nat. disse...

Exclamação. Bravo. Exclamação.