segunda-feira, 13 de setembro de 2010

É melhor que

Era noite, e eu estava no ônibus voltando para casa, pensando sobre como se consegue não pensar em nada, já que o consciente pode até fingir que está quieto, mas o inconsciente não, está: sempre ligado digo: a mente é consciente+inconsciente, então é impossível ficar sem pensar, acho. O ônibus passou pelo parada do shopping Praia de Belas, e em seguida duas gurias levantaram-se e falaram para o cobrador:
moço
não, por
favor. a gente parou na parada errada, tem
como abrir a porta, 
rapidinho,
senão a gente fica perdida.

O cobrador disse que não, que a próxima parada era perto de sei-lá-qual-prédio-da-Justiça porém: essa parada fica a quatro quadras do shopping, e naquele momento estavam duas gurias loiras daquelas em que a gente imagina quando pensa em guria estuprada. Eram duas gurias lindas, mas não eram estupradas. Uma pediu:
moooooço
por favor. agora é sinal
vermelho. o shopping é lá longe
e tá tão escuro. 
é escuro e perigoso para a gente.

O moço ficou meio indeciso, coçou a nuca e falou queque chose para si. Depois respondeu que não, meio que se desculpando, que não, vai que passa um motoqueiro e atropela vocês, a culpa fica em mim.

Ambas disseram aaaaaah e desceram na parada que era longe. O cobrador ainda as seguiu com o olhar, acho que cuidando. Porém isso fez-me pensar se todo esse desenrolar foi ético ou não digo: qual a porção de ética que havia nessa situação, se é que é ética que se passa nisso. O cobrador recebe ordens de que não pode deixar ninguém sair se não for na parada. Mas era noite, e poderia acontecer algo com as gurias loiras. Ninguém saberia que ele teria deixado-as sair antes, pois só havia eu no ônibus. Ele: 
podia abrir a porta. Ele devia? D-e-v-e-r-i-a? Essas coisas que a gente faz quando ninguém nos olha porque sabemos que ninguém acusará. As garotas não deveriam pedir o que pediram visto que é certo que sabiam que o homem burlaria regras. Contudo o que é tudo isso senão uma situação em que há as regras do sistema, um roteiro em que todos devem atuar, porém de repente ficam em dúvida em relação ao que devem fazer e seguir? Tudo culpa de duas passageiras que colocaram dúvidas na cabeça de um homem que provavelmente procura não as ter.

Era um ônibus e gurias loiras não-estupradas e um pobre cobrador de boné preto, mas também era o sistema com suas regras planejadas para ser sempre seguidas, para ser sempre cumpridas. Quem é que ousa questionar? 

Melhor que sejam estupradas.

2 comentários:

Inês disse...

ai!
algo de incômodo na sua escrita - além dessa intimadade sem cerimônias com as palavras e as imagens - faz você ser uma pessoa interessante demais pra não doer um miligrama a mais a dor de a vida ser tão curta.
obrigada pela visita no meu blog!
(e eu tb tenho esses pensamentos sobre estar pensando ou não, quando não estou pensando em nada ao voltar pra casa).

dear sarah disse...

Saudades daqui. Não desgrudo mais.
òtima tarde!