sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Varsóvia

Era o primeiro Natal que não passaríamos juntos. Viajaria para a Polônia. O fato de ele viajar não era algo que por si só me incomodasse, mas essas datas simbólicas sempre têm uma poder de mexer com a gente. Óbvio que era só uma janta sem ele, mas também era o Natal sem ele. Eu realmente não sou católico, mas a ceia do dia 24 não é de religião. Não mais: hoje é ceia de união, de comunhão e compartilha. Estava mais triste do que eu, também pelo fato de que passaria a data sem qualquer pessoa conhecida, e essa sua tristeza ajudava a alimentar em mim a reticiência de passar o Natal sem sua companhia. O que é um pouco ridículo, porque passamos 22 anos sem o outro. Isso de lamentar-se pela solitude é um pouco de manha e de vício. Ao menos é o que eu acho. Bom, no momento eu tentava descobrir o que ele achava, porque ficava quieto nas cadeiras do aeroporto interrompendo o olhar somente para averiguar as horas no relógio. Óbvio que estava nervoso e dotado de receios, mas não havia como esperar menos do que isso. Quando me comunicou que viajaria durante o Natal, fez menção de dizer que, se eu quisesse, cancelaria a viagem. Não chegou a efetivamente dizer a frase em voz alta, mas engoliu saliva e olhou para o lado como quem se prepara. Antes de tornar a olhar para mim, falei-lhe que seria uma experiência muito boa e que dela tiraria muito proveito. Entendeu o recado, pois em seguida me encarou e sorriu, para depois ir à cozinha esquentar o leite para misturar com café. A situação ficaria um pouco constrangedora se ele efetivamente me pedisse permissão, e eu lhe desse, porque ficaria em entrelinhas que suas ações são necessitadas de minha aprovação, o que não realmente não ocorre. Mas há nos relacionamentos qualquer coisa de um jogo teatral, de encenação e sedução. Sedução não somente em carne, mas seduzir como ato de conquistar, para conseguir algo de seu agrado e que faça o parceiro sacrificar-se um pouco, para evidenciar afeto.

- Você vai se divertir com sua família hoje à noite? – perguntou-me como que pedindo que eu lhe assegurasse que não choraria de solidão no chão da cozinha.

Sim, vai ser legal, vai estar todo mundo junto, afirmei. O fato de estar todo mundo junto não quer dizer nada, mas falei isso como que para dizer que haveria mais testemunhas de meus sorrisos e atos efusivos. Natal tem muito disso, mas também tem em todos os dias do ano, então realmente não me importo muito. Apenas acho desgastante o fato de todos repetirem que o ano passou rápido, que já é fim de ano (e que está tão calor, meu Deus...) e daqui a pouco terei 30, 40, 50 anos, sempre números cheios que atestem a velhice e, em suas cabeças, porquês de degradação e morte.

- Como comemoram o Natal lá mesmo? – disse-lhe para fazer com que parasse de pensar em mim e passasse a se imaginar lá.

- Eles não comem carne vermelha no dia 24 e fazem uma espécie de cerimônia de perdão para afastar os sentimentos negativos.

Hm. Engraçado que aqui no Brasil, só se pensa em sentimentos negativos nas festas quando alguém se pega no pau. Quando não há nada parecido, tudo é lindo e maravilhoso. Falei-lhe isso. Riu e disse-me que eu pensava isso porque não era de família italiana. Não vi qualquer relação à vista, mas lembrei-me de sua parentada gesticulando e falando alto, Caroline está casando com um homem cujo pai delira em uma cama de hospital, diz que é filho da vida e da morte, que tem pais do mesmo sexo que brigam todos os dias para saber quem fica com a guarda dos filhos. Na hora eu ri alto, mas cheguei à conclusão de que o velho era, afinal, mais lúcido do que muita gente.

Somos todos filhos de Adão e Eva
E da Vida e da Morte
Pedimos misericórdia e um pouco de esperança para encarar o espelho
Enxergar não só olhos e nariz e cabelos
Mas um pouco de alma
E de força nos olhares que sustentam nossa carne

A voz feminina avisou que ele deveria embarcar. Passageiros para Varsóvia etc. Não entendi muito bem na hora porque meu coração bateu mais forte, e nessas horas em que o coração bate mais forte a gente se transporta para outra realidade: não falamos a língua que nos habituamos a falar, suamos mesmo recém saídos do banho, cegos mesmo em um salão enorme de um aeroporto asséptico. Nos levantamos vagarosamente. Perguntei se estava ansioso ou angustiado.

- Acho que já vivi em tanta angústia e ânsia que me habituei com ambas – respondeu-me enquanto dava a mão direita. Engraçado como conseguiu ser poético sem ser piegas ao mesmo tempo. E sem faltar com a realidade também. Gosto de sua poesia.

Chegando perto do detector de metais, encarou-me e disse-me que traria todos os jornais diferentes que encontrasse. “Esquece isso e vai gastar tempo com você”, eu respondi. Óbvio que achei o máximo ele falar isso, mas também me controlei para não ficar com um ar de convencido. Não adiantou.

- Mas não vá ficar convencido – disse sorrindo enquanto passava o indicador no meu queixo.

Enveredou-se pela ala de embarque.

Nunca mais o vi, porque uma semana depois foi esfaqueado por uma prostituta enquanto tentava forçá-la a fazer sexo sem camisinha.

4 comentários:

Luciano Viegas disse...

baita texto

Anônimo disse...

adoro fins românticos.

Anônimo disse...

existe fins? finais.

poliquaresma disse...

bom pra nós se continuar melhorando dessa forma