terça-feira, 13 de julho de 2010

Crônica do perseguido e a dama da noite

Não escrevo há dias textos meus, mas ainda quero que essa Polaroide seja um espaço de reflexão. Enquanto não sair nada de mim, abasteço com o que não é. Para quem não percebeu, quando a escrita é em itálico é porque não é minha.

Se conhecem, de madrugada, num bar de luxo. Ao amanhecer ele acorda na cama dela. Ela esquenta o café; tomam na mesma xícara. Ele descobre que ela rói as unhas e que tem lindas mãos de menina. Não se dizem nada. Enquando se veste, ele busca palavras para explicar que não poderá pagar. Sem olhar para ele, ela diz, como quem não quer nada:
 - Não sei nem como você chama. Mas, se quiser ficar, fique. A casa não é feia. 
Ele fica.
Ela não faz perguntas. Ele tampouco.
Pelas noites ela vai trabalhar. Ele sai pouco ou nada. 
Passam os meses.
Uma madrugada, ela encontra a cama vazia. Em cima do travesseiro, uma carta que diz:

"Quisera levar tuas mãos. Roubo uma luva.
Perdoe. Tchau e obrigado por tudo".

Ele atravessa  rio, com documentos falsos. Poucos dias depois, cai preso. Cai por uma bobagem. Estava sendo procurado há mais de um ano.
O coronel insulta e bate. Ergue-o pela gola:
- Vai dizer onde esteve. Vai contar tudo.
Ele responde que viveu com uma mulher em Montevidéu. O coronel não acredita. Ele mostra a fotografia: ela sentada na cama, nua, as mãos na nuca, o cabelo negro deslizando sobre os peitos:
- Com essa mulher - diz. - Em Montevidéu.
O coronel arranca a fotografia das mãos dele e de repente ferve de fúria, dá um murro na mesa, grita "puta que a pariu, traidora filha da puta, vai me pagar, desgraçada, vai me pagar".
E então ele entende. A casa tinha sido uma armadilha, armada para caçar gente como ele. E lembra o que ela tinha dito, um meio-dia, depois do amor:
- Sabe de uma cioisa? Eu nunca senti com ninguém esta... esta alegria dos músculos.
E pela primeira vez entende o que ela tinha acrescentado com uma sombra estranha nos olhos.
- Alguma vez ia acontecer comigo, não é? - tinha dito. - Foda-se. Eu sei perder.
(Isto aconteceu em 56 ou 57, quando os argentinos acossados pela ditadura cruzavam o rio e se escondiam em Montevidéu.)

Dias e Noites de Amor e Guerra, Eduardo Galeano

2 comentários:

D i c a disse...

Eduardo Galeano é fodão!
Foi ele quem escreveu isso: "A memória guardará o que valer a pena. A memória sabe de mim mais que eu; e ela não perde o que merece ser salvo."
E tenho guardado na memória.


Quando estou em épocas de estiagem leio muito, é bom, refresca nossa mente. Ultimamente tenho lido bastante e escrito quase nada. Tenho preferido assim.

beijo.

Atreyu disse...

Coitada dela né? tive pena da pobre, mas adorei o conto =D