terça-feira, 27 de julho de 2010

Liquidificador

(O amor não ama mais
As coisas boas pois
Não sente o que é pra ser
Sentido. No amor,
Tudo é sem sentido
Sem ter tido
Qualquer coisa.
No amor não se tem,
Apesar de se sentir.
Tudo é falso,
Exceto o amor
De se ferir.)

ELE: O amor não existe, minha cara, é preciso abrir os olhos para enxergar isso e ater-se ao fato de que eu e você somos como aquela velha salada de frutas em que a gente bota açúcar pra sair mais caldo mas nem caldo sai mais, as frutas de tão velhas se tornam murchas e nem lembram daquele aspecto bonito que tinham na feira quando o feirante dizia que pegasse, meu bom jovem, tá novinha novinha. Pois é, nós dois somos uma velha salada de frutas, não adianta colocar nenhum açúcar pois não há caldo que saia, é preciso aceitar que talvez o feirante tenha se enganado, era uma boa fruta, sim, mas agora já está velha, compreende, por que guardar uma fruta velha que a gente nem pode comer, que só serve para olhar e lembrar de algum tempo em que era bela e que se admirava, você me entende, tem coragem de comer uma salada de frutas velha?

(Uma salada de frutas velha.
Velhas frutas murchas
Pra comer.
Sentir o ácido sabor
De uma lembrança,
Que de ácida,
Corrói meu ser. Que de forte
Faz-me temer
Lembrar de outras tantas lembranças
Compartilhadas com você.)

ELA: O amor existe, meu caro, é preciso fechar os olhos para enxergar isso e ater-se ao fato de que
sim, velha salada de frutas
é que somos. Velha
piada suja é que ouço de sua voz,
que ainda me é doce. Que ainda
me faz doce serenata de amor. É que você se esquece na feira há, sim, muitos feirantes berrando que leve esta, prove aquela, mas nada é obrigatório pois não se paga para entrar e se pode ficar horas pesquisando as frutas, você pega a que quiser, a culpa não é da fruta se o feirante pressionou alguém a comprá-la. Contudo o feirante deixa ali, esperando que ninguém veja. Cada um pega a fruta que quiser.

     Você não
E   Entendeu. Eu disse
L   Que a fruta é velha. E velha
E   É a salada de frutas
     De uma fruta velha

ELA: Minha mãe pega bananas velhas, assim, quase pretas, coloca no liquidificador com Nescau e faz uma batida que eu e meu irmão adoramos, fica uma batida gostosa feita com velhas frutas.

ELE: Não gosto de batida de banana.

(O amor não ama mais
As coisas simples. Porque
Nada é simples
Neste todo complicado.
Complica tudo
Neste todo separado. Se separa tudo
Em cada parte misturada.
O amor não ama mais
As coisas simples. Porque
Nada é simples.
Para quem
Se habilita
A complicar.)

ELE: O meu amor não ama mais o teu amor.

ELA: E já se amaram?

ELE: Já. O meu amor
já amou o teu
amor. Já ficou
sentindo o sabor:
acho que o sabor de coisa simples
da tua coisa
complicada.

ELA: O nosso amor já foi coisa misturada.

4 comentários:

Ludmila Melgaço disse...

Quem dera todos os finais de amores fossem tão belos (e cruéis!) assim.
Amor é drama.

mari brito disse...

amor é cruel.

lindos textos, me inspiraste olha :)

Carlos Alberto Moreno disse...

ahahahaha

bom, engraçado, complexo, (des)conexo

vontade de sair lendo tudo, em voz alta... é claro

ps.: retribuindo a visita, com muito gosto e feliz por ter encontrado esse lugar aqui

abração.

Carlos Alberto Moreno disse...

ah, estou te seguindo no twitter rs

8]