terça-feira, 6 de julho de 2010

Junho

Postagem para o Clube da Escrita:
*
Acho que primeiro me apaixonei pelos dentes os dentes
são perfeitos não pode haver uma boca mais perfeita.
Te amo Max. Te amo mas em janeiro meu boneco.
As Meninas, Lygia Fagundes Telles

Ele vive no Brasil e por isso não existem bonecos-de-neve, mas ainda vai ao parque sentar nas praças e imaginar que cada árvore é um boneco que cada boneco é uma árvore - cada criança é um adulto e adulto é criança. A praça é ele, e ele é a praça. A praça se chama Camilo e ele se chama Praça das Flores. Ninguém nunca parou para pensar o que aconteceria se todos os papéis do mundo fossem invertidos, não os papéis de destino [?], mas os papéis representados - porque ele é a representação de um jovem e um jovem é a representação do ser humano: mas e se a representação dum jovem fosse um cão? E se algumas pessoas tivessem a habilidade de viver 12 segundos da vida do outro, Camilo pensa mas não sabe. Camilo, não: Praça das Flores. É em junho que a praça fica mais bonita por causa do: frio. Camilo não é feio e sai em fotografias com casacos forrados e jeans desbotados mas mesmo assim não é feio. Todos dizem que é ele quem mais chama a atenção nas fotos: mas Camilo diz que quem chama é o frio. O frio não sai em fotos, mas ele diz que sim, porque se manifesta nas feições de cada um. Cada um de nós tem uma feição para cada estação, e a feição de Camilo no inverno é a mais bonita. 

A minha feição mais bonita 
É a que não tenho pra você.
A que escondo todo dia
Pra te ver. A que cultivo todo o ano
Pra me ter
Guardando todo o santo dia
(Um dia pra
Você.)

Em junho a praça fica mais bonita, assim como Camilo. A praça mais intimista e Camilo mais hermético. Eu acho que no fundo no fundo, ser hermético é ser bonito - ser bonito é mais hermético. Eu tenho um pouco de intimismo dentro de mim, quer dizer, porque ninguém lê meus pensamentos. Mas Camilo se esquece: se esquece que a praça suga tudo, as Flores captam a luz mais ínfima e o pensamento mais retrógrado, não há como esconder-se apenas resta o conformismo de que um a um somos herméticos para um e para todos, Camilo não lê o pensamento dos outros, mas os sente: mas entre saber e sentir - esconde-se um abismo que mata tanta gente, que afoga sim quem pense em cruzá-lo. Camilo é diferente porque tenta. Camilo tem Junho dentro de sua alma, e Junho tem Camilo em sua estação: porque no inverno todos ficam mais bonitos. Não por esconderem em casacas suas gorduras e estrias, mas porque no inverno todo mundo é hermético. E ser hermético é bonito: não pros outros: mas pra si, porque Camilo sabe que a beleza está nos olhos de quem vê: e só o intimismo cria tal olhar.

Camilo corre pela praça
E esquece que pisa em folhas dumas árvores
Que antes eram ele. As árvores
Eram bonecos-de-neve.
Bonecos não falam:
Mas escutam.
Adultos não escutam:
E parecem só hablar.

Adultos em Junho.
Camilo em cada estação
(Não de trem, mas daqueles que se sente
Pela pele. Aquelas
Que os poetas tentam escrever.)
Camilo não escreve:
Camilo pensa.

(Camilo em Junho é mais bonito.)

2 comentários:

Nina Vieira disse...

Papéis invertidos, gostei disso. Alguém que pode ser uma paisagem... Se eu fosse só uma parte mínima dessa paisagem - já seria muito feliz.

D i c a disse...

A primeira estrofe, o primeiro verso depois da introdução em prosa foi um louvor. Tão bem escrito, aliás, todo o texto está. Na criação foi espetacular, Marcel.
Discordo com o Camilo/Praça das flores, no frio as pessoas ficam mais serenas, talvez até elegantes quando bem vestidos, mas bonito mesmo ficamos no verão e na primavera.